OS INVISÍVEIS TÊM QUE APARECER

Há um mês, escrevi sobre a morte dos sem-teto que moravam no prédio que desabou depois de um incêndio na cidade de São Paulo. Um caso que comoveu todo o Brasil.

Escrevi porque fico indignada em ver o sofrimento num país onde poucos têm tanto e muitos têm tão pouco. Os invisíveis já foram esquecidos, como era de se esperar. No entanto, quero torná-los reais novamente. Quero que apareçam.

E pensei: escrever pode ser fácil, mas qual seria uma solução prática? Lembrei de tudo o que vi e vivi.

Como já falei aqui, minha curiosidade me levou longe. Tão longe que, quando me dei conta, fazia parte de uma organização voluntária nos Estados Unidos, a Junior League.

O grupo ajuda várias entidades nas mais diversas causas. Ainda falarei sobre a Júnior League, mas por ora quero me ater a uma das ONGs que conheci.

A Opportunity House é um programa para moradores de rua. Inicialmente, a ideia parece semelhante a dos albergues que estamos acostumados, porque oferece abrigo e comida àqueles que não têm onde morar.

Mas a semelhança para aí. Além das 75 camas, conta com dez apartamentos, destinados à famílias, que são amplos, higienizados e com móveis que você encontraria em qualquer moradia decente.

O abrigo, que fica em Reading, na Pensilvânia, foi criado em 1984, após a morte de moradores de rua em decorrência do frio. A cidade, aliás, já foi considerada uma das mais pobres dos EUA.

Os abrigados passam de 30 a 120 dias no local até se restabelecerem e, depois, vivem em apartamentos transicionais, também da entidade, quando já estão empregados e contribuem com 30% do seu salário para pagar o aluguel.

Nos últimos anos, 72% dos participantes deixaram as ruas.

Mas o que garante o alto índice de sucesso? São os pilares que sustentam o apoio no retorno à normalidade. Todo indivíduo, por exemplo, tem um especialista para seu caso, que montará um plano realista para a auto-suficiência. Há pessoas designadas para assuntos específicos — desde se preparar para uma entrevista ou redigir um currículo até o gerenciamento do dinheiro e avaliação mental.

As mães contam com uma creche para as crianças, e a garantia de poder trabalhar enquanto seus filhos recebem cuidados.

A ONG funciona com ajuda do governo, mas grande parte das doações são de indivíduos ou empresas. Nos EUA, a sociedade já entendeu faz tempo que investir na qualidade de vida dos menos favorecidos é garantia de uma cidade com menos violência e menos problemas.

Para mim, este projeto é interessante porque não é apenas emergencial, mas algo a médio prazo, que está estruturado para realmente ajudar o indivíduo ou as famílias a caminharem com as próprias pernas. Em poucas palavras: não só dá o peixe, mas ampara o indivíduo enquanto ele aprende a pescar.

O projeto parece impossível de ser colocado em prática no Brasil? Em cidades grandes, talvez. Mas é preciso lembrar que tudo começa com uma ideia fundamentada em algo lógico. Exatamente como começou a Opportunity House em Reading.

Que outra opção temos senão olharmos para programas que dão certo, ainda que em outros países?

Por: Debora Nunes

 

Famílias sem-teto que moravam no edifício Wilton Paes de Almeida recebem alimento de voluntários, no Largo do Paissandu, região central de São Paulo (SP) – 02/05/2018 (Nacho Doce/Reuters)