Menos julgamento, mais acolhimento Dialética

Por Natalino Salgado Filho*

É claro que a vida é boa

E a alegria, a única indizível emoção

É claro que te acho linda

Em ti bendigo o amor das coisas simples

É claro que te amo

E tenho tudo para ser feliz

Mas acontece que eu sou triste…

(Vinicius de Moraes)

 

As palavras ditas por um dos maiores poetas brasileiros revelam o paradoxo daqueles que – aparentemente – têm tudo para viver uma vida regalada e feliz e, a despeito de um cenário favorável – em algumas vezes, é claro – sentem-se desconfortáveis e deslocados em meio à vida. São as pessoas que sofrem de uma das doenças mais insidiosas, a depressão.

Acerca da doença, o escritor Andrew Solomon escreveu o livro O demônio do meio dia para narrar seu próprio desvario. Com uma sinceridade desconcertante, o autor aborda o tema sob os mais diversos aspectos e conseguiu chamar a atenção do mundo inteiro para um problema que aos poucos tem conseguido ser visto sob a ótica da compaixão e da solidariedade, ele que esteve há muito relegado ao desprezo e preconceito.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) constatou, em 2018, um aumento vertiginoso nos casos de depressão ao redor do mundo, numa média de  18,4%, tendo como base o ano de 2005. A entidade estima que essa doença será, até 2020, a que mais incapacitará em todo o mundo.

Em nosso país, mais de 75 mil trabalhadores foram afastados, em 2016, pelo INSS para tratamento,  número que o coloca no topo do ranking na América Latina: estima-se que perto de 6% dos brasileiros sofrem com a depressão. Os fatores são variados e as consequências também. Perda da autoestima, desânimo, sensação de desprazer constante e reclusão são alguns comportamentos evidenciados e que podem evoluir para finais trágicos, como o suicídio.

Em setembro do ano passado, o Ministério da Saúde divulgou que 106. 374 pessoas morreram em decorrência do suicídio, um número alarmante. Para se ter ideia, em 2007 foram registrados no Brasil pouco mais de 7.735 casos – e dez anos depois, em 2017, esse  número saltou para 36.779 casos. Os números mostram outra triste revelação: o suicídio é, entre os jovens de faixa etária entre 15 a 29 anos, a quarta causa de morte, sendo o terceiro motivo mais comum entre os rapazes e o oitavo entre as moças.

A depressão, que pode evoluir para o suicídio, é uma doença grave, mas que tem tratamento e pode ser curada com o apoio, compreensão e o suporte dos profissionais da área da saúde, da Psicologia, além da família e dos amigos. Uma das importantes ferramentas de combate é o Centro de Valorização da Vida, o CVV, disponível por meio do número 188 que pode ser ligado de qualquer telefone. Essa associação, sem fins lucrativos, reúne pessoas preparadas para ouvir e auxiliar pessoas que sofrem da doença.

Santos Dumont, Van Gogh, Virginia Woolf e Robin Williams são casos emblemáticos de pessoas famosas que, acometidas pelo mal, resolveram dar cabo da própria vida, vítimas da depressão. De forma assustadora, começamos a nos dar conta de que pessoas próximas e queridas a nós enfrentam o drama dessa doença que não redundou em cura e que ocasionou uma trágica consequência. Acolher mais e julgar menos é um caminho virtuoso no combate desse mal, que democraticamente não escolhe idade, sexo, cor e religião. Que sejamos mais solidários e tolerantes.

[*] Natalino Salgado Filho é Médico, doutor em Nefrologia, ex-reitor da UFMA, membro da ANM, da AML, da AMM, Sobrames e do IHGMA.