Governo e políticos vão tentar empurrar a economia para cima e a Operação Lava-Jato para baixo

O presidente Michel Temer acredita ter conseguido controlar a mais recente ameaça que seu governo, indiretamente, enfrentava – a crise de violência com a paralisação da Polícia Militar no Espírito Santo que poderia servir de “exemplo” para outros estados, a começar do Rio de Janeiro – e se prepara para atacar duas outras frentes de problemas que o afligem.

O ministro da Defesa, Raul Jungman, à falta de um titular na Justiça e Segurança Pública para assumir o comando do grupo que foi a Vitória tentar debelar a crise, garante que a ordem está restaurada em terras capixabas. Assim, Brasília via em frente.

Numa das frentes, segurança garantida, pretende botar o bloco da economia para andar na rua com maior velocidade do que começou a andar. É quase unânime a opinião, entre os especialistas do governo e fora dele, que o PIB deixou o fundo do poço. Porém, é uma retomada lenta, a opinião é que crescerá 1% este ano, apontando para 2% ou um pouco mais em 2018.

O que é considerado pouco, considerando-se que o poço bateu fundo demais no emprego e na renda dos assalariados. O mundo político no Palácio do Planalto, no Congresso e nos partidos aliados quer mais, pois acha que com a população mais satisfeita será possível fazer esquecer o outro fantasma que assombra suas noites: as cobranças por punições exemplares na Operação Lava-Jato e investigações similares.

Por isso, há pressões sobre a equipe econômica para que adote medidas pontuais para incentivar o consumo – forma de fazer a indústria e o comércio girarem e aumentar mais rapidamente a oferta de emprego. Além de torcer, naturalmente, para o Banco Central continuar bem aberto à redução da taxa básica de juros e nas medidas para diminuir o spread bancário.

As pressões sobre o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que tem sido cauteloso em avançar nesta linha, estão fortes e devem crescer.

SEM VERGONHA DE SAIR

DO ARMÁRIO DA ANISTA

Na outra frente, que está perdendo a vergonha de sair do armário, arma-se o cerco (ou seria circo?) para tentar “estancar” (expressão do senador Romero Jucá) a Operação Lava-Jato, com medidas como anistia para o caixa 2 e propostas para inibir as ações do Ministério Público, da Polícia Federal e da Justiça, coisas já tentadas ano passado e temporariamente arquivadas.

O movimento ficou claro como se pôde sentir nos últimos dias com episódios como a nomeação de Moreira Franco para um cargo ministerial, a eleição de Eunício de Oliveira e Rodrigo Maia para as presidências do Senado e da Câmara, a indicação de Edison Lobão para comandar a Comissão de Constituição e Justiça do Senado, a indicação do ex-ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, para o STF, e a disputa dos partidos políticos para indicar o novo ministro da Justiça entre um deles – ver “Primeiras” da semana passada.

Lobão já deu a senha publicamente, em entrevistas no fim de semana nas quais defendeu abertamente a anistia para o caixa 2 e posicionou-se a favor de mudanças nas regras das delações premiadas, um dos pesadelos dos enrolados na Lava-Jato – ela só seria admitida para pessoas que estivessem soltas. Lobão, como se sabe, não tem voz própria. É meio boneco de ventríloquo dos comandantes do PMDB no Senado, em especial do ex-senador e ex-presidente da República, José Sarney.

Uma dessas ações antiLava-Jato vai passar hoje por um crivo: o ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello deverá julgar uma liminar apresentada por partidos de oposição contestando o cargo de ministro dado a Moreira Franco com direito a foro privilegiado. No momento, por decisão liminar da Justiça Federal, le é ministro, mas sem a proteção do foro. O parecer de Mello é relevante porque, mais do que pelo voto em si, sua argumentação mostrará até que ponto a Suprema Corte está atenta a manobras para confinar as investigações de corrupção pública contra políticos e partidos.