Dividida para 2022, esquerda ainda lambe feridas de 2018

Um ano depois da campanha eleitoral, os partidos da esquerda ainda remoem as mágoas de 2018. Nos últimos dias, três políticos da oposição ao governo federal tornaram públicas divergências em relação à corrida presidencial do ano passado. Pelo discurso da trinca, as refregas do passado deixaram feridas com potencial para atrapalhar alianças futuras.

Partiram do governador da Bahia, Rui Costa (PT), as declarações mais surpreendentes sobre a disputa perdida para o presidente Jair Bolsonaro (PSL). Em entrevista à Veja, o petista afirmou que, em 2018, “o certo” teria sido apoiar o candidato Ciro Gomes (PDT) em vez de lançar o ex-ministro da Educação Fernando Haddad (PT) para o Planalto.

Costa defende a formação de uma frente dos partidos de esquerda para enfrentar o presidente Jair Bolsonaro (PSL). Nessa linha, o governador da Bahia diverge do seu partido ao não condicionar os acordos para 2022 a uma adesão da campanha pela libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

De quebra, o baiano reclamou do apoio dado pelo PT ao presidente da Venezuela, Nicolas Maduro. Na opinião de costa, o governo do país vizinho desrespeita a democracia e agride os direitos dos cidadãos.

Outra entrevista estonteante para a esquerda foi dada por Ciro. O pedetista disse à BBC Brasil que “Lula se corrompeu”. Afirmou também que a candidatura de Haddad em 2018 foi uma “fraude” pela insistência do ex-presidente em se colocar na disputa mesmo impedido pela Lei da Ficha Limpa.

Na onda de críticas ao PT, o deputado Júlio Delgado (PSB-MG) reforçou as divergências em torno do líder petista preso em Curitiba. Em entrevista ao Metrópoles, o parlamentar afirmou que a campanha #Lula Livre está “ultrapassada” e impede a unidade dos partidos de esquerda. Os socialistas buscam um candidato mais ao centro, fora da polarização política, para tentar vencer a corrida presidencial de 2022.

A três anos da próxima disputa pelo Planalto, claro, ainda é cedo para se fazer previsões sobre a próxima disputa pelo Palácio do Planalto. Antes, a esquerda poderá usar as eleições municipais de 2020 para ensaiar alianças que ajudem em entendimentos futuros.

No mesmo campo político, o PCdoB também se movimenta para tentar chegar a 2022 em uma correlação de forças mais favorável do que em 2018. Principal nome do partido, o governador do Maranhão, Flávio Dino, trabalha por uma aliança da esquerda.

Pela projeção alcançada nos últimos anos, o chefe do Executivo maranhense também se coloca como uma alternativa para o Planalto. O fato de representar um partido comunista, no entanto, reduz a margem de manobra para o lançamento de uma candidatura que fuja da polarização com a extrema-direita. De qualquer forma, será peça importante na definição de futuros acordos.

Atingido pelas críticas, o PT reagiu à entrevista de Rui Costa. A Comissão Executiva Nacional divulgou nota em que reafirma a “decisão absolutamente correta” de lançar a candidatura própria em 2018. O comunicado termina com a indicação de que Lula pode ser um dos nomes para o Planalto daqui a três anos.

A se levar em conta as declarações de Rui Costa, Ciro Gomes e Júlio Delgado, essa sinalização reduz as chances de um acordo amplo da esquerda para enfrentar Bolsonaro e outros possíveis candidatos situados no espectro direito do cenário político, como o governador de São Paulo, João Dória (PSDB). Pelo visto, o PT não pretende dar ouvido a essas críticas.