Alvo de Carlos Bolsonaro, Mourão se reúne só com 8 parlamentares opositores

Uma das críticas do vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ) ao vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB), que acirrou a disputa dentro da base aliada do governo nas últimas semanas, é o seu “alinhamento com políticos que detestam o presidente” – termo usado pelo vereador nas redes sociais.

Mas, segundo a agenda oficial do vice-presidente publicada até domingo, dos 63 deputados federais, senadores e governadores recebidos pelo general desde a posse, apenas oito políticos integram a oposição ao presidente Jair Bolsonaro (PSL) – o restante é parte da própria base aliada e do chamado “centrão”.

As críticas de Carlos ao vice-presidente são frequentes e se acirraram nos últimos dias. Mas o “fogo amigo” ao general vice de Bolsonaro não vem somente dos filhos do presidente, mas também de dentro da própria base do governo, como o pedido de impeachment feito pelo deputado Marco Feliciano (Podemos-SP), que foi arquivado na semana passada.

Entre os opositores que foram recebidos por Mourão estão os deputados federais Pompeo de Mattos (PDT-RS), Flávio Nogueira (PDT-PI) e Pérpetua Almeida (PCdoB-AC) e os senadores Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e Capitão Styvenson (Rede-RN). Entre os governadores da esquerda, aparecem os petistas Wellington Dias (Piauí) e Rui Costa (Bahia) e o comunista Flávio Dino (Maranhão).

Entre os parlamentares e governadores recebidos por Mourão, a maior parte é do próprio PSL, a sigla de Bolsonaro – o partido de Mourão, o PRTB, não tem nenhum representante eleito para nenhuma das Casas do Congresso nem nenhum governador.

Mourão faz “articulação gerencial”, não política

Na avaliação do cientista político Antônio Flávio Testa, que foi parte da equipe de Bolsonaro na campanha e chegou a integrar o gabinete de transição, Mourão não desempenha o papel de articulador político, já que não se encontra com lideranças. O que ele faz é uma espécie de “articulação gerencial”, se reunindo com setores empresariais e embaixadores.

“Os políticos têm procurado o Mourão porque têm dificuldades de acesso a Bolsonaro. Ninguém quer falar com o vice, todo mundo quer falar com o presidente, que é quem decide. Ele não está barganhando politicamente, não vai ao Congresso, não visita líderes dos partidos. Ele só tem recebido visitas, assim como outros vice-presidentes faziam”, explica Testa.

“Em política não existe espaço vazio. Se você não ocupa o espaço, outro ocupa”. (Antonio Testa, cientista político)

“Mourão não é político, não é o perfil dele. Ele está aprendendo a fazer política, disputou sua primeira eleição e ganhou”, afirma Testa, lembrando que o general foi a última opção de Bolsonaro para o cargo de vice na chapa. “Mas acredito que foi o melhor vice que poderia ter sido escolhido, já que eles se completam.”

Na avaliação de Testa, Bolsonaro deveria aproveitar Mourão com papéis semelhantes aos desempenhados por vice-presidentes protagonistas, como José Alencar (do então PMDB, vice do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva). “Alencar, por exemplo, foi um vice-presidente com papel importante, foi também ministro da Defesa. E, por mais que ele não concordasse com a política do PT de aumentar impostos, presidente e vice nunca entraram em atrito durante os dois mandatos”, explica Testa.

“Bolsonaro instiga conflito”

Apesar de Bolsonaro ter dado declarações para tentar apaziguar o conflito, cientistas políticos afirmam que o presidente, na verdade, incita e se aproveita das críticas ao seu vice.

“Bolsonaro não coloca panos quentes. Ele diz que os filhos estão acima de tudo. De certa forma, ele até instiga o conflito. Poderia dar uma ordem como pai e presidente da República de que os filhos desempenhem seus papéis como vereador, deputado e senador, e não interferem no governo federal –exceto como representantes das instituições para as quais foram eleitos. Mas ele diz que o filho tem muito poder porque foi o responsável por ele ter chegado à Presidência”, diz Testa. “Mas o Carlos não conseguiu 57 milhões de votos, existem milhões e milhões que votaram no anti-PT, e estão interpretando essa realidade de uma forma míope.”

Para a professora de ciência política Maria do Socorro Braga, da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos), Bolsonaro tenta ganhar com a situação. “Ele incita isso. É claro que existe a relação de pai e filho, que é hierárquica, Bolsonaro é um militar da reserva e foi educado em um meio hierárquico. Mas ele não consegue controlar os filhos, que na verdade estão cada vez mais ocupando espaço. Mas eles fazem tudo isso sem saber as consequências do que estão fazendo”, diz a cientista política.

“Essa artilharia que vem da família Bolsonaro não é só contra o Mourão, é contra todo o setor militar, que é um dos mais organizados dentro do governo. A gente deve ver ainda muito mais crise daqui para frente, à medida que aparecerem as diferenças do ponto de vista de articulação, de programas e medidas em que os grupos pensem de forma diferente”. (Maria do Socorro Braga, professora da Ufscar)

Testa diz ainda que é possível que Carlos “esteja achando que o Mourão está comandando uma conspiração político-partidária para fazer uma base de enfrentamento ao governo do pai”. “Mas ele está esquecendo uma coisa importante: o Mourão foi eleito junto com o pai, ele não precisa de voto. Ele não precisa aprovar nada no Congresso, quem precisa é o Bolsonaro”, diz. “É um jogo político, mas não vejo o Mourão brigando com o Bolsonaro. Vejo o Bolsonaro brigando com o vice. Ele diz que o filho é seu porta-voz”, afirma.

Maria do Socorro cita ainda a gravidade dos pedidos de impeachment de Mourão que partem de dentro da própria base do governo. “Normalmente a gente vê este tipo de processo partindo da oposição, da própria sociedade, mas não da base aliada.”

“É muito sério isso, vai criando essa animosidade que é muito séria para o presidente e o vice. Mourão não coloca fermento nas rusgas. Mas isso mostra que é um segmento que está criando oposição para ela mesma, é algo muito destrutivo. É um grupo de deveria estar conjugando as forças e pensando em um projeto comum para o país, e não alimentando a cortina de fumaça para ter escândalos e brigas”, diz a professora.

Já o ex-conselheiro de Bolsonaro afirma os pedidos de impeachment são uma “manifestação de oportunismo despropositada”. “Para pedir um impeachment, você precisa ter um fato concreto. Pediram por conspiração, mas qual é a prova de conspiração, qual é o indício? Nenhum. Essas pessoas querem aparecer”, diz Testa.

“Quando o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) foi aceito, havia mais de 40 pedidos feitos, todos arquivados sem sustentação jurídica. Com três meses de governo, você pede o impeachment do vice-presidente por qual motivo? Por causa da fofoca do filho do presidente que não gosta dele?”, pergunta ele.