A Psicologia da Hostilidade Progressista

Recentemente, estive num momento de introspecção sobre um aspecto curioso do meu próprio comportamento. Quando discordo de um colega conservador sobre qualquer tema político, eu não tenho medo de dizer o que penso. Eu falo, ele ouve, ele responde, eu falo um pouco mais, e no fim, nos damos tão bem quanto sempre ocorreu. Mas eu descobri que quando algum amigo progressista diz algo de que eu discordo ou que eu sei que está equivocado, eu hesito em chamar-lhe a atenção para esse fato. A hesitação é consequência da diferença de tratamento que recebemos das pessoas enviesadas à direita e à esquerda quando expressamos uma opinião divergente. Eu não sou o único, no entanto, a ter observado isso.

“É uma pergunta estúpida pra cacete”, respondeu um ativista da Aliança Socialista quando eu perguntei sinceramente de onde ele obteve o que parecia ser uma estatística de pobreza inflada. “Se você não acredita no casamento gay ou no controle de armas, pode cancelar a minha amizade nas redes sociais”, exigem diversos murais de Facebook de pessoas que conheço. “Isso é nojento e racista!”, babou de raiva um revoltado Ben Affleck quando o neurocientista e ateu Sam Harris criticou a doutrina islâmica no programa Bill Maher’s Real Time. Ninguém dá um pio sequer quando Harris critica o cristianismo, muito menos Affleck, que estrelou na irreverente sátira religiosa Dogma. Os cristãos não são uma minoria sacrossanta a ser protegida pela esquerda política. Como o jornalista da revista Skeptic, Michael Shermer, tuitou recentemente:

Surtos de hostilidade emocional dos ativistas progressistas – agora descritos como guerreiros da justiça social ou GJS (ou SJW do inglês: Social Justice Warriors) – passaram a ser conhecidos como estar ‘surtado’. O termo é originalmente aplicado para pacientes de transtorno de estresse pós-traumático, mas os ativistas o adotaram para descrever a ansiedade e o desconforto que experimentam quando eles são expostos a pontos de vista dos quais discordam. “Dane-se a liberdade de expressão!”, é o que um grupo justiceiros sociais disse ao Vice Media, como se isto justificasse a opinião crescente entre alunos universitários de que conservadores deveriam ser impedidos de emitir opiniões nos campi acadêmicos. Já não é segredo que, com o aumento de progressistas surtados, os professores universitários estão sendo intimidados por seus próprios alunos. Um exemplo ilustrativo dessa tendência alarmante foi providenciado pelas hordas de alunos barulhentos que cercaram o ilustre sociólogo de Yale, Nicholas Christakis, e exigiram sua cabeça (a qual eles receberam, como esperado). Christakis cometeu o erro de defender um e-mail que sua mulher escreveu gentilmente criticando as tentativas da universidade de regular as fantasias da Halloween dos alunos. “Quem diabos lhe contratou?!”, berrou um estudante irado em resposta: “Você deveria pedir demissão”!

Essa mentalidade do tipo ‘meu jeito ou nenhum jeito’ agora está se espalhando para muito além da universidade e chegando a comunidades remotas. Na pequena cidade de Alice Springs, na Austrália, onde eu morei por um tempo, agitadores atacaram e tentaram silenciar a conselheira aborígene local da cidade, Jacinta Price, por seu nobre esforço em melhorar a vida de seu povo. Quando a conselheira tentou soar o alarme para o crescimento dos casos de doenças sexualmente transmissíveis e dos adultos estupradores de crianças em comunidades aborígenes, ela foi desqualificada, sendo rotulada de ‘traidora’ e ‘coco’ (um termo de desprezo usado para descrever a pessoa considerada negra por fora e branca por dentro). Esse tipo de crítica não vem da maioria dos habitantes aborígenes de Alice Springs, mas de uma minoria de furiosos ativistas ofendidos que, em seus pequenos círculos, planejam remover Price do conselho da cidade antidemocraticamente. A censura, agora, é o instrumento escolhido, e um autoritarismo reacionário vem definindo o que o ativista liberal muçulmano Maajid Nawaz denominou ‘Esquerda Regressiva’.

Então como e por que esses ativistas se tornaram tão intolerantes e difíceis de se lidar? Parte da hostilidade pode ser explicada por uma ignorância propositada e uma falta de curiosidade absoluta quanto às ideias das quais discordam. De tempos em tempos, algum amigo progressista remexe minha estante de livros à maneira de um policial do pensamento. O que acontece é um tanto previsível. Uma vez que encontram o épico melanésio ‘A Vida Sexual dos Selvagens’, de Malinowski, e percebem que não há sequer uma imagem erótica, eles voltam sua atenção à coleção de livros de Ayn Rand. “Por que você tem esses?”, eles perguntam com ar de indignação, segurando uma cópia do ‘Capitalismo: O Ideal Desconhecido.’ “Você já leu ela?”, eu pergunto. “Não,” seguramente, eles responderiam.

O filósofo liberal John Stuart Mill explicou uma vez que “O maior orador, salvo um, da antiguidade, deixou registrado que ele sempre estudou as alegações de seu adversário tão intensamente, se não ainda mais, do que as suas”. Mill defendeu que a menos que estudemos cuidadosamente os argumentos daqueles de quem discordamos, nós nunca saberemos realmente o que há de certo ou errado neles. “Aquele que sabe apenas o seu lado da questão”, Mill escreveu em seu livro, de 1859, ‘Sobre a Liberdade’, “sabe pouco dela”. Nossos oponentes podem estar certos, porque eles podem saber um fato ou oferecer um argumento que nunca consideramos. E, mesmo se não estiverem corretos, Mill lembra que pedaços da verdade podem ser revelados dentre suas falsidades, que podem guiar nossas mentes em novas direções.

Espalhado ao longo do que entendo ser a equivocada teoria do Objetivismo de Ayn Rand, há momentos de insight penetrantes. Em sua crítica ao trabalho dela, o falecido presidente da Sociedade Filosófica Americana, Robert Nozick, adjetivou o seu trabalho como sendo “poderoso, iluminador e provocador de pensamentos”.

O mundo é mais complexo do que podemos imaginar, e cada novo ponto de vista que encontramos pode enriquecer nosso entendimento mesmo se não o adotarmos inteiramente. Mas isso vem com o risco de auto supressão e uma incerteza crescente. Imagine que você está em uma pequena clareira no meio de uma vasta floresta, e a floresta representa sua ignorância perante o mundo. O espaço aberto que você ocupa representa seu conhecimento. Enquanto você ganha conhecimento, o espaço aberto aumenta e a floresta da ignorância recua. Mas, à medida que o espaço aberto se expande, a circunferência dele e, portanto, a área de contato entre o conhecimento e a ignorância se estendem juntos. Então, paradoxalmente, quanto mais conhecimento você adquire, mais ignorante você se sente. Essa é a gênese da humildade intelectual, a realização socrática de que quanto mais você conhece, mais você percebe que não conhece, e mais aparente fica que suas próprias opiniões são suscetíveis a falibilidade.

Este é um tremendo problema para alunos progressistas adentrando o ensino superior, onde pontos de vista notadamente homogêneos são ensinados e ideias heterogêneas são descartadas. Por exemplo, uma das concepções mais ridicularizadas por filósofos nas últimas décadas foi a noção de ‘justiça social’, que foi tão criticada que o economista e filósofo vencedor do prêmio Nobel, Friedrich von Hayek, mencionou uma vez que esta ideia ainda iria envergonhar seus defensores. Mas pergunte a qualquer autodenominado justiceiro social o nome de algum crítico da ideia mesma, e eles provavelmente não conhecerão nenhum. As críticas à justiça social são rotineiramente varridas para debaixo do tapete em um ambiente que requer que os estudantes abracem a ideia sob juramento, como se nenhuma objeção legítima ou razoável tenha existido.

Um grande grupo de filósofos e economistas vencedores de prêmios Nobel é inclinado ao pensamento da direita. O problema é que essas pessoas tendem a adentrar o mundo dos negócios ou entram em áreas acadêmicas tais como engenharia, economia e matemática. Eles entregaram as humanidades e aquilo que o filósofo Roger Scruton chamou de ‘áreas falsas’ como estudos étnicos e de gênero aos seus adversários políticos à esquerda, que exercem o poder inquestionado de moldar a mentalidade dos estudantes. De acordo com uma pesquisa de 2005, conduzida nos EUA, só havia um professor de sociologia republicano nas ciências humanas para cada quarenta professores democratas, e hoje sabemos da extensão do ressentimento que existe quando opiniões fora do consenso progressista penetram em seu território.

Ano passado, o escândalo de Wilfred Laurier chocou professores moderados e conservadores, quando uma jovem professora assistente, Lindsay Shepherd, revelou que ela foi interrogada e repreendida por seus superiores por ter mostrado um vídeo de Youtube em sua aula de comunicação social. O vídeo em questão foi um debate televisionado entre um grupo de progressistas e o psicólogo Jordan B. Peterson sobre se a lei deveria ou não punir canadenses que se recusassem a usar os novos pronomes para pessoas transgêneros, como ‘zir’ ou ‘ver’ (no português conhecemos o ‘elx’). Durante a gravação sub-reptícia da interrogação por Shepherd, é possível ouvir seus superiores explicando que o professor Peterson possui opiniões “problemáticas”, e que ela deveria tê-las criticado ou nem sequer deveria ter mostrado o vídeo aos alunos. “Mas isso seria assumir um lado”, protestou a assistente Shepherd, com a voz notadamente estressada, e insistia que apesar de ela não partilhar o mesmo ponto de vista de Peterson, ela mostrou o vídeo no intuito de estimular o debate em sala de aula. “Sim”, respondeu um dos interrogadores, “você não notou que isso não é algo suscetível ao debate”? Seu trabalho, informaram-na, era se opor às opiniões da direita política.

De acordo com esses acadêmicos e outros como eles, não só as pessoas devem ser punidas pela não conformidade ao novo consenso politicamente correto, mas opiniões conservadoras que se opuserem às punições também devem ser punidas. Um estudo de 2012, conduzido por Yoel Inbar e Joris Lammers e publicado em Perspectives on Psychological Science (Perspectivas da Ciência Psicológica – tradução livre), descobriu que corpos docentes progressistas admitem abertamente discriminar a minoria conservadora quanto a promoções e patrocínio a pesquisas.

Dado o atual ambiente, conservadores seriam aconselhados a simplesmente abandonarem a academia se eles sabem o que é bom para eles. No entanto, é problemático quando um aluno passa pela universidade e cada uma das matérias é ministrada por um professor inclinado à esquerda. Para estudantes conservadores, o ambiente universitário, hostil e tóxico, não alija seu desenvolvimento intelectual. Esses estudantes chegam à universidade com ideias conservadoras e naturalmente buscarão e lerão mais autores conservadores em seu tempo livre para contrabalançar as últimas aplicações de doutrina progressista à qual foram sujeitos em aula. Os mais ambiciosos terão familiaridade tanto com ambos Rand e Marx, Keynes e Hayek, Galbraith e Friedman, Krugman e Sowell, Picketty e Peterson. Mas também devemos nos preocupar com o aluno progressista, que chega com ideias progressistas e é banhado em sala de aula com mais do mesmo e as reforça no seu tempo livre. Tais estudantes vivem em um universo muito menor culturalmente que o mundo intelectual cosmopolita dentre o qual o conservador terá de navegar. Isto não é para negar que reacionários bitolados do outro lado do espectro político também habitam em um espaço intelectual minúsculo. Mas isto não justifica a mente fechada no ambiente universitário.

Em 2014, um dos principais estudiosos do mundo no campo da psicologia moral foi publicamente acusado de homofobia por mostrar em sua sala de aula um vídeo sobre o fenômeno da ‘Estupefação Moral’. Uma transcrição do vídeo que Jonathan Haidt mostrou em sua aula e uma transcrição do pedido de desculpas que ele ofereceu à classe no dia seguinte podem ser vistos, respectivamente, nos links:

https://sternopportunity.files.wordpress.com/2014/03/transcript-video.pdfhttps://sternopportunity.files.wordpress.com/2014/03/transcript-apology.pdf

Uma investigação subsequente feita pelo Escritório de Oportunidades Iguais da universidade não encontrou evidências de transgressão. Mas, ao invés de irritar-se com essa tentativa de assassinato de reputação, Haidt desenvolveu um fascínio pelo problema da hipersensibilidade da universidade. “É uma época louca, mas, também, uma época fascinante para ser um cientista social”, ele mencionou. “É o amanhecer de uma nova religião, e eu estudo a psicologia moral embora a religião, a política, e até os esportes sejam todas manifestações de um tribalismo”.

Em seu livro notável, The Righteous Mind: Why Good People are Divided by Politics and Religion (Por que pessoas de bem estão divididas pela opinião política e a religião – tradução livre), Haidt recorda-se de uma experiência. Ele e seus colegas Brian Nosek e Jesse Graham buscaram descobrir o quanto um aluno conservador e um, nos termos do autor, ‘liberal’ (progressista) entendiam um ao outro através de um questionário que eles deveriam responder da maneira como imaginavam que seus oponentes responderiam. “Os resultados foram claros e consistentes”, notou Haidt. “Em todas as analises, os conservadores foram mais precisos que os liberais.” Quando requisitados a pensar da mesma maneira que um liberal pensaria, os conservadores responderam a questões morais exatamente como um liberal responderia, mas os alunos liberais foram incapazes de fazer o inverso. Pelo contrário, eles tendiam a imputar aos alunos conservadores ideias morais que eles não têm. Falando sem meias palavras, Haidt e seus colegas descobriram que os progressistas não entendem os conservadores da forma que os conservadores entendem os progressistas. A isso ele chama de ‘vantagem conservadora’, e aprofunda vastamente as maneiras diferentes que cada lado usa para lidar com opiniões diferentes das suas. As pessoas ficam com raiva daquilo que não entendem, e uma educação integralmente progressista garante que eles não entendam.

A pesquisa de Haidt ecoa argumentos feitos por Thomas Sowell em seu livro Conflito de Visões: Origens Ideológicas das Lutas Políticas e Steven Pinker em Tabula Rasa: a negação contemporânea da natureza humana. Ambos, Sowell e Pinker, argumentam que os conservadores veem um mundo desafortunado de escolhas morais onde cada julgamento moral vem com um custo que precisa ser equilibrado de acordo. Os progressistas, no entanto, parecem estar cegos ou em negação sobre essas compensações, seja econômica ou socialmente; a visão deles é utópica e irrestrita, onde cada queixa moral deve ser imediatamente extinta até obtermos a sociedade perfeita. É por isso que os conservadores não tendem a expressar a mesma hostilidade emocional que a esquerda; uma compreensão aprofundada a respeito da complexidade do mundo tem o efeito de incentivar a humildade intelectual. Os conservadores ouvem as últimas demandas dos progressistas e dizem: “Estou vendo agora como você pôde chegar a essa conclusão, mas acho que você ignorou o seguinte…” Em contraste, os progressistas ouvem os conservadores e dizem: “Não faço ideia de como você acreditaria nisso. Você, provavelmente, é um racista”.

Sem dúvidas, outros fatores afetam a confusão da mente surtada dos progressistas. Teorias em voga, como aquelas desenvolvidas por Jacques Derrida, ensinam a estudantes que todo texto e idioma é estruturado pelo poder, portanto, qualquer argumento de alguém em uma posição de poder de ‘gênero’ ou ‘racial’ pode ser descartada independentemente de sua validade lógica. Ao reforçar essa premissa com uma educação fortemente enviesada à esquerda, os educadores das universidades criaram uma Geração Frankenstein de alunos fanáticos, e agora estão descobrindo que são incapazes de forçar o gênio de volta à sua lâmpada mágica. Com a ascensão da Academia Heterodoxa, progressista, liberal, os professores conservadores estão se levantando, unidos em função de suas preocupações a respeito dos perigos da ortodoxia educacional e determinados a trazer um fim à dominação da extrema-esquerda nas áreas de humanidades e ciências sociais. É uma causa nobre colocar-se em nome da diversidade de opiniões e da livre investigação, enquanto o resto da sociedade, lentamente, se atenta ao que seus impostos estão financiando. O declínio agudo do apoio público à universidade, especialmente entre os republicanos e os conservadores, sugere que eles não estão impressionados.

Fonte: Tradutores de Esquerda