“Nunca iremos dormir”: as crianças reescrevem as regras da casa

Por Decca Aitkenhead, Sarfraz Manzoor e Clover Stroud [*]

Doces no café-da-manhã, brigas de travesseiros à vontade e nada de arrumar a casa. O que acontece quando três famílias deixam as crianças tomarem as decisões por uma semana?

“A casa tem o aspecto confuso de uma fraternidade estudantil dos anos 90, no dia seguinte a uma festa regada a ecstasy”: Decca Aitkenhead

Após as três primeiras horas, me sinto leve, quase tonta. Estou deitada no sofá com os meus garotos, comendo chocolate e vendo televisão. Não é exagero dizer que estou curtindo o melhor momento da vida. Pela primeira vez, em oito anos e meio, eu não estou no comando. Esta sensação exótica de relaxamento é completamente estranha — e, ainda assim, me traz uma memória distante de quem eu costumava ser.

O experimento crianças no comando começou às 13:00 e eu não estou acreditando no quão bem ele está indo. Na verdade, eu estava aterrorizada, esperando uma carnificina, mas, até aqui, tem sido só diversão. Às 13:01, os garotos correram para a padaria e gastaram 10 euros em bolos, antes de pegar a estrada, para almoçar no McDonald’s. Eu estou adorando não ter que lavar a louça e estou curiosa para ver o que eles irão comer depois.

Jake propõe uma ida a lojinha da esquina para comprar mantimentos. Eu ando ao lado dele, na calçada, rindo das suas piadas. O seu humor está fervendo irreconhecivelmente e eu o digo que ele está hilário. Então, ele parou, virou-se para mim com uma expressão de sinceridade e disse:

“Você não vê? Este sou eu de verdade. As suas regras me deixam assim:” e ele se encolhe, se curvando para frente e torcendo os pulsos, como se estivesse algemado. “Mas as nossas regras libertaram o verdadeiro eu”, e entra na loja.

REGRAS DE JAKE E JOE

  • Decca não pode dizer “não”;
  • Sem banho;
  • Guerra de comida, a cada hora;
  • Sem limite para assistir TV;
  • Sem hora para dormir;
  • Decca tem que brincar de “Laser Tag” quando não quisermos;
  • Doces, chocolates e refrigerantes à vontade;
  • Deca tem que dançar quando quisermos;
  • Xingar Donald Trump, via e-mail, a cada dez horas;
  • Podemos baixar jogos no celular da Decca;
  • Palavrões são permitidos;
  • Guerra de água ilimitada;
  • Péssimos modos à mesa;
  • Proibido vegetais;
  • Permitido pular na cama da Decca, para jogar Wii e fazer xixi no assento do vaso.

Eu o encaro, chocada. E se ele estiver certo? No que eu estava pensando, todos esses anos, vigiando sombriamente a hora de dormir, o brócolis e a urina na tampa do vaso? Comparando com outros pais, sempre me considerei bastante permissiva. Eu não tenho nem o tempo e nem a energia para ser uma mãe totalmente vigilante. Mas agora, na medida em que a tensão de cuidar das crianças desaparece, estou começando a ver a falta de alegria agonizante da vida familiar sob as minhas regras.

Na loja, eu vejo o cérebro de Jake com dificuldades para se ajustar ao conceito de viver sem limites. Ele dança pelos corredores, impressionado com as possibilidades, se livrando do hábito de pedir permissão ao pegar um pacote de biscoitos. Vendo que eu não liguei, ele pega uma barra de chocolate. Em seguida, como um prisioneiro se acostumando com a liberdade, ele enche as mãos. O único momento em que eu intervenho é quando ele pede duas latas de Stella Artois ao caixa.

Voltamos para casa, após gastar 52 libras [equivalente a R$ 250,00] em refrigerantes, doces, biscoitos e cookies, que os garotos espalharam na mesa da cozinha. Agora, parece que as tigelas com frutas e sementes foram colocadas com photoshop na nossa casa. A cozinha lembra um daqueles reality shows que junta duas famílias ridiculamente incompatíveis.

Enquanto a dose de açúcar bate, explode uma guerra de travesseiros e as coisas começam a se parecer com O Senhor das Moscas. Jake pega um velho Wii, doado por um amigo da família. Normalmente, os garotos podem assistir 15 minutos diários de TV, após a escola. Eles também podem ver filmes aos finais de semana, e nenhum outro tipo de tela, salvo se a) na casa de outras pessoas; b) em voos longos; ou c) em feriados, quando a franquia de bagagem não é suficiente para acomodar o equivalente a quinze dias de Lego/ livros/ sabres de luz, etc. Meu iPad é ocasionalmente usado em situações de emergência, mas faz parte do acesso dos garotos à tecnologia.

Por ter crescido nos anos 70, quando não havia TV, eu considero essas regras bastante generosas – mas depois, sucumbi ao apelo dos dispositivos eletrônicos. Jake e Joe esperavam usar esta oportunidade para converter. Assim, aos 47 anos, eu joguei videogame pela primeira vez. Era um jogo chamado “Bomberman Land”. Eles ficam tão animados em ver a mãe operar um controle, que quase quis curtir da experiência. Entretanto, fico entediada rapidamente. Eles então me põem para jogar “Lego Batman”, mas eu acabo ficando tonta. Sem compreender o meu fracasso em compartilhar do entusiasmo deles, as crianças convidam o seu amigo de oito anos John. Então, Joe grita para ele: “Nunca iremos para a cama!”, percebo que eu também preciso de companhia.

Eu convido alguns amigos, compro comida chinesa e vinho e, então, acabamos tendo uma noite adorável, sem sermos interrompidos pelo tédio dos rituais da hora de dormir. Nenhum dente será escovado. Nenhum brinquedo será guardado.

As crianças sequer precisam ser alimentadas. Elas se viram com os seus mantimentos, até que a casa esteja repleta de embalagens vazias.

Às 1:30AM, eu estou caindo de sono e vou para a cama, com três garotos ao meu lado, jogando “Lego Harry Potter”, no Wii. Quando eu acordo, às 4:50AM, eu não consigo acreditar. No último ano-novo, Jake ficou acordado até às 3:00AM. Todavia era uma festa e, mesmo assim, Joe foi dormir à meia-noite. Eu acreditava que era fisicamente impossível para eles durar mais um minuto. No entanto os três garotos estavam ao meu lado, com os olhos grudados no video-game.

Às 7:30AM, encontro eles dormindo, com roupas normais, cobertos de farelo de biscoito e de latas de Fanta vazias. Logo após as 8:00AM, Joe desce as escadas. Eu o pergunto como se sente e ele responde: “Bem. Quase vomitei, mas estou bem”.

Ele pega uma lata de Coca-Cola na geladeira, enche uma tigela com leite condensado e come tudo com uma colher. Ao terminar, ele parte para a Nutella. Ver o seu filho devorar isso a colheradas e não fazer nada é uma forma de experiência fora do corpo. É como observar um acidente de carro, envolvendo o seu filho, e ir embora sem fazer nada. É horrível, mas estranhamente libertador. Quando Jake desce as escadas — esbarrando nas paredes, sem nenhuma coordenação —, as primeiras palavras que ele diz são: “Posso pegar o seu telefone?”

É assim que o dia prossegue. Quando o pai de John vem buscá-lo, Jake e Joe convocam alguns amigos da escola, que chegam e se assustam, mal podendo acreditar no que eles estão vendo em nossa casa. As cortinas continuam fechadas, meu celular e laptop tomados, e os diversos aparelhos absorvem totalmente a atenção deles. Ninguém toma banho, troca de roupa ou diz alguma coisa.

É tarde, eu percebo que a atmosfera da casa tem o aspecto confuso de uma fraternidade estudantil dos anos 90, no dia seguinte a uma festa regada a ecstasy. O tempo foi suspenso, o sono foi esquecido, os neurônios foram danificados. Olhando pelo lado positivo, pela primeira vez em quatro anos, eu tenho paz para ler dois jornais de sábado, do início ao fim. Se os garotos estão animados com a sua nova liberdade, um pouco de mim também está. Eu não preciso cozinhar, tomar conta, ou entreter. Eu não preciso fazer nada.

À noite, eu me sinto rançosa e enjoada. Meu estômago está revirado, por causa do excesso de açúcar. Tudo o que eu quero é ir dormir. Por outro lado, Jake e Joe estão aproveitando ao máximo. Eu pergunto como eles estão se sentindo e eles respondem: “Ótimos! Este é o MELHOR final de semana de todos!” Às 10:00PM, eu os convenço a assistir desenhos comigo, na cama, imaginando que, quando eles parassem de brincar com o Wii, iriam dormir. Graças a Deus, foi exatamente o que aconteceu.

“Então, o que vocês querem fazer hoje?”

Eles acordaram com 11 horas faltando para voltarmos às minhas regras. Até então, não havíamos saído de casa. “Cama elástica? Kart? O que vocês quiserem.” Atividades como estas não são típicas dos nossos finais de semana familiares. Elas ocorrem apenas quando é o aniversário de algum deles. Eu lembro a eles: “Vocês estão no comando”. Jake contempla as suas opções e responde: “Acho que eu quero ficar em casa e jogar”.

E é isso o que eles fazem, de novo, o dia inteiro. Todas as regras engraçadas e divertidas são esquecidas. Eles não querem que eu faça uma dança engraçada ou brigar de travesseiro. Eles esquecem dos e-mails para Donald Trump. Eles nem mesmo querem KFC ou Burger King. Apenas me mandam à loja para comprar mais 20 libras em doces artificiais.

A este ponto, começo a achar que mesmo panquecas já seriam um alimento muito nutritivo para mim. Então, eu preparo algumas, enquanto os garotos passam mais tempo em frente a TV. Eu preparo bandejas com o café-da-manhã, guardanapos coloridos e coberturas em potes de vidro. Enquanto eu sirvo as bandejas aos garotos, percebo que eu nunca faço isso. Eu digo a eles que os amo o tempo todo, mas nunca demonstro. Estou sempre ocupada, me certificando de que eles façam corretamente as tarefas de escovar os dentes e se arrumar. Foi somente quando fui proibida de dizer “não” aos meus filhos que eu percebi o quanto eu faço isso. Eu não lembro qual foi a última vez que eu disse “sim”, quando eles me pediram para brincar.

Atormentada, eu entro na sala e desafio os garotos para uma batalha de “Laser Tag”. Foi como se eu entrasse em uma cracolândia e propusesse um jogo de críquete. Jake e Joe estavam lerdos e com olheiras, fedendo a suor seco, ignorando a tudo menos o Wii. Em 48 horas, o açúcar e a tecnologia acabaram com a vitalidade da infância, transformando-os em viciados. A analogia pode parecer melodramática, mas o paralelo é inegável. Eu me lembro do primeiro dia, com Jake alegre. Foi maravilhoso. Mas eu temo que tenha sido apenas uma alegria como a causada pelas drogas — neste caso, consideradas legais e perfeitamente normais.

A epifania deste final-de-semana é a minha negligência em levar as coisas na brincadeira. Nós então retornamos às minhas regras, com o objetivo de fazer a vida em família mais feliz. Entretanto, se os garotos acham que as regras deles irão relaxar as minhas sobre o videogame e doces, eles estão muito enganados.

O VEREDITO

JAKE WILKINSON, 8 ANOS

Quando a nossa mãe nos contou que iria nos deixar aplicar as nossas próprias regras, nós quisemos começar imediatamente. Estávamos muito ansiosos para isso e foi muito legal.

Fizemos as coisas fáceis primeiro, como proibir limites para assistir TV e comer doces e ficar acordado até tarde; mas depois pensamos em algumas mais malucas.

Quando o nosso amigo John veio para dormir aqui em casa, foi como o recreio mais longo do mundo, pois não tinha hora para dormir. Eu aprendi que não haver regras é a melhor coisa do mundo. Se fizéssemos isso de novo, eu não mudaria nada.

JOE WILKINSON, 6 ANOS

Minha parte favorita foi que nossa mãe gastou muito dinheiro com doces. Na manhã de sábado, senti que iria vomitar, mas eu consegui evitar e pude continuar comendo os doces. Escolher as próprias regras foi divertido, mas não foi saudável para nós. Eu acho que, se ficássemos para sempre no comando, ficaríamos doentes. Entretanto eu adoraria fazer isso de novo.

“Eu esperava que houvesse um toque de gratidão por estarmos fazendo todos os caprichos. Sem chance”: Sarfraz Manzoor

No primeiro dia das regras das crianças, estava nevando e a escola estava fechada. Minha esposa, Bridget, estava no trabalho, nosso filho de um ano, Ezra, estava com sua babá, e eu estava em casa com nossa filha de seis anos, Laila, que estava ocupada devorando uma tigela de Coco Pops.

Quando contamos a Laila pela primeira vez que iríamos consentir todas as suas exigências, ela começou com a comida: “Eu quero Coco Pops para o café da manhã e batatas fritas com ervilhas e palitos de peixe para o jantar todos os dias. E quero comer meu pudim antes do jantar — porque o pudim é a melhor parte.”

Nada de granola; nada de vegetais e grãos velhos e chatos. Então ela entrou no ritmo das coisas: nada de discussões, nem telefone na hora do jantar, nem na hora de dormir.

Normalmente, em um dia de folga, Laila me pedia para ler um livro para ela, ou ela teria desenhado ou brincado com seus bonecos. Hoje não. “Eu quero assistir o Reino Mágico de Ben & Holly”.

Regras de Laila

  • Assistir mais TV
  • Mamãe e papai leem para mim na hora de dormir
  • Sem discussão
  • Papai não olha para o telefone dele na hora do jantar
  • Café da manhã de Coco Pops
  • Jantar de palito de peixe, batatas fritas e ervilhas
  • Hora de dormir quando eu quero
  • Papai cantando músicas de Matilda na hora de dormir
  • Não arrumar

Bridget cresceu em uma família que não possuía uma televisão até os 16 anos, e Laila assiste menos televisão do que muitos de seus amigos — cerca de meia hora a cada dois sábados. E agora ela estava ali, ainda de pijama, assistindo ao que resultava duas horas de televisão, o equivalente a oito semanas de vida normal.

Bridget e eu estamos juntos há 10 anos e acredito que não discutimos mais do que outros casais, mas também não discutimos menos. No entanto, uma das regras de Laila era não discutir mais. Não demorou muito para que Bridget voltasse do trabalho para a primeira discussão para começar a fermentar, mas tivemos que nos conter. Nós nos concentramos em fritar o jantar de Laila.

Quando a comida estava pronta, Laila recusou-se a sentar na cadeira: queria comer deitada no chão. Nós não poderíamos discutir com ela — ou uns com os outros — então nos sentamos lá ficando silenciosamente irritados.

Na primeira noite, Laila pediu que Bridget e eu a colocássemos na cama — revezando-se para ler um livro para ela. Isso foi adorável — nossa filhinha se aconchegou entre nós quando lemos Moominsummer Madness. Na hora do banho, pedira a Bridget que se juntasse a ela na banheira. Foi comovente quantas de suas regras visavam passar mais tempo conosco. Eu me perguntei se isso era uma reação ao fato de que, desde que seu irmão, Ezra, havia nascido, a quantidade de atenção que poderíamos dedicar exclusivamente a ela inevitavelmente havia sido reduzida.

Eu sempre achei que o maior presente que eu poderia dar à minha filha era fazê-la consciente da música de Bruce Springsteen’ — eu tinha cantado suas músicas para ela na hora de dormir desde que ela nasceu — então eu estava um pouco magoada quando ela pediu uma mudança no momento em que ela estava no comando.

“Eu quero algo de Matilda”, disse ela. Eu obedientemente procurei a letra de When I Grow Up — que, apesar de não ter o drama narrativo de The River, de Springsteen, não foi nem um pouco ruim.

No segundo dia, Laila continuou com sua dieta de Coco Pops, batatas fritas e televisão, mas decidiu que não queria que nós dois lêssemos para ela: além disso, ela queria dormir na mesma cama que Bridget. Eu fui exilado para o sofá-cama.

Eu esperava, talvez ingenuamente, que houvesse o menor indício de gratidão pelo fato de Bridget e eu estarmos fazendotodos seus caprichos. Sem chance.

Naquela noite, nem Bridget nem Laila dormiram bem e no dia seguinte a combinação de açúcar, privação de sono e liberdade a empurraram para o abismo.

Ela acordou rabugenta e com fome. O Coco Pops pode ter sido delicioso, mas eles não estavam enchendo-a. A fome se transformou em irritabilidade. Recusou-se a vestir o casaco ou as botas de borracha para ir às ruas cobertas de neve e insistiu em andar descalça com calças justas e um vestido de verão.

Nós nos sentimos como pais terríveis por permitir isso, mas toda vez que sugeríamos qualquer coisa que parecesse um conselho sensato, ela começava a gritar, nos chamando de idiotas e nos dizendo para calar a boca. Ela gritou na rua e berrou e se contorceu no metrô de Londres enquanto os passageiros tentavam desviar os olhos. Ela gritou suas exigências para assistir seu programa favorito de uma forma que era ao mesmo tempo aterrorizante e de partir o coração: “Eu quero Ben & Holly AGORA e quando digo agora eu quero dizer AGORA!”, ela gritou. Senti-me grata pelo homem que vivia no apartamento abaixo de nós estar na casa dos 80 anos e ter dificuldades auditivas.

Tentamos lembrá-la de todos os brinquedos, livros, giz de cera e jogos que ela tinha. Laila olhou para eles e disse duas palavras que eu não me lembro de ela dizer: “Estou entediada”.

Sempre tentamos oferecer uma frente unida em face dos desafios, mas Bridget e eu tivemos ideias muito diferentes sobre como lidar com o comportamento de Laila. Eu tinha sido criado em uma família onde eu não ousaria levantar a voz para o meu pai — ele nunca batia, mas ele exercia tal autoridade que responder a ele, mesmo aos 20 anos, era impensável.

Os pais de Bridget a incentivaram a demonstrar emoção – e, quando adolescente, ela ameaçou jogar uma cadeira na mãe. E assim, em face do colapso de Laila, Bridget e eu nos encontramos discutindo sobre a melhor atitude, o que, é claro, levou Laila a apontar: “Você não tem permissão para discutir na minha frente.”

Bridget saiu do quarto, acidentalmente, pisando acidentalmente em uma faixa de orelhas do coelho peludo amado, que quebrou, provocando mais lamentos de Laila. Normalmente, as orelhas não estariam no chão porque teriam sido arrumadas, mas as regras de Laila estipulavam que ela não precisava arrumar nada.

“Laila, eu não gosto do que você está se transformando”, disse Bridget de maneira lamentosa.

“Eu quero Ben & Holly!” gritou Laila, e deliberadamente derrubou um copo de água no tapete.

“É isso”, disse Bridget, “estamos abandonando essa experiência maldita!”

Laila estava fora de si. Eu me perguntei se tínhamos terminado o experimento ou se o experimento havia terminado conosco.

Alguns dias depois, eu estava colocando Laila na cama e ela estava sendo a velha Laila — engraçada, inteligente e amorosa. Essa transformação de volta para algo próximo ao seu antigo eu era para mim uma indicação dos perigos em dar às crianças o que elas querem, em vez de o que elas precisam. Dito isso, estar ciente de quão importante Laila achou que passar tempo conosco levou-me a tentar ser mais presente para ela quando estou com ela — e não para continuar usando meu telefone na frente dela.

Na manhã seguinte, Laila estava cavando numa tigela de granola. “Eu estou querendo saber como as outras famílias estão fazendo com as crianças sendo o chefe? Eu estou achando que está indo mal.”

“Por que você diz isso?”, Perguntei.

Laila olhou para mim.

“Porque foi ruim para nós”, respondeu ela.

O veredito

Laila Manzoor, seis anos

Eu inventei as regras pensando sobre quais eram minhas coisas favoritas e tentei transformá-las em uma lista. Eu também não queria que mamãe e papai discutissem, porque é um pouco chato, porque é um pouco barulhento.

Eu gostava que ambos me colocassem na cama porque era bom ouvir as duas vozes diferentes. Foi bom estar entre eles na cama porque eu poderia me aconchegar com os dois.

Eu acho que os adultos devem definir as regras porque é mais saudável. Se eu só comesse batatas fritas e Coco Pops, talvez vomitasse cem vezes por dia.

“Eu me sinto como Theresa May durante as negociações do Brexit”: Clover Stroud

Com mais de 15 anos entre meus cinco filhos, negociar regras com as quais todos concordam se revelam um processo imensamente complicado, e é possivelmente a razão pela qual temos tão poucas regras em nossa casa.

Foi trazido para casa para mim enquanto eu os conduzo ao redor da mesa da cozinha, esperando por uma discussão séria e produtiva. Lester, o mais novo aos 18 meses, balança os pés descalços em sua cadeira alta, derrubando preguiçosamente um copo de leite no chão. O mais velho, Jimmy, de 17 anos, se arrasta até o final da mesa, olhando com uma sensação visível de que as regras só são feitas para serem quebradas. Ele só olha de seu telefone quando ele realmente pega a essência do que estou propondo.

“Então, nós poderemos fazer o que quisermos e você terá que deixar rolar?”, ele diz, parando no meio do Snapchat para ouvir. Pacientemente, começo a explicar que ele pode ditar certas regras que devo obedecer, até perceber que ele está transformando meu discurso em uma história do Snapchat, e tenho que encerrar a reunião rapidamente antes de ser compartilhada como um humilhante meme de mídia social.

Com duas faixas etárias distintas em nossa família — os adolescentes, Jimmy e Dolly, 14, e os pré-escolares, Lester, Dash, três e Evangeline, cinco —, criamos dois conjuntos de regras. As demandas das crianças menores não parecem muito cansativas, pois elas querem fazer coisas como comer mais pizza e doces e assistir mais televisão. Entretanto os adolescentes me desafiam. Eu me sinto como Theresa May durante as negociações do Brexit, já que eu comecei convencida de que posso ter o melhor dos dois mundos, mas rapidamente percebo que não vou conseguir o que quero e que vai doer.

Regras de Jimmy e Dolly

  • Carona para qualquer lugar, a qualquer hora
  • Noite semanal dos jogos da família
  • Jantar temático todas as noites – mexicano, indiano, etc
  • Fornecimento constante de cereal de chocolate
  • Nós decidimos a hora de dormir

Regras de Evangeline, Dash e Lester

  • Doces todos os dias
  • Assistir televisão todos os dias depois da escola
  • Dormir na cama da mamãe
  • Leitura durante o tempo que quisermos todas as noites
  • Pizza para o jantar

Nem tudo é doloroso — Dolly quer noites temáticas regulares e uma noite de jogos em família, o que quase me parte o coração —, mas Jimmy é direto, exigindo uma carona para qualquer lugar, a qualquer momento. Este é o meu calcanhar de Aquiles. Vivemos na zona rural de Oxfordshire, à beira de uma pequena aldeia sem escola, loja ou pub. Não é tão afastado quanto morar em Brecon Beacons ou nas Terras Altas, mas precisamos dirigir em todos os lugares; às 19h30, quando as crianças menores estiverem na cama, eu farei qualquer coisa para não ser um serviço de táxi para os adolescentes.

Espero que este ambiente tenha dado a Jimmy, cujo desejo de estar o mais longe possível da vida familiar é mais desenvolvido do que o de Dolly, uma relação mais profunda com o mundo natural. Às vezes sinto que ele é como um personagem de um romance de Thomas Hardy, já que ele passa muito tempo caminhando para encontrar amigos em campos arados, geralmente ao luar ou na chuva forte. Não tenho a menor ilusão de que ele não está à altura de todos os truques habituais da adolescência, já que ele é capaz de conseguir pizza e, provavelmente, todo tipo de coisa que os adolescentes apreciam, entregues em campos próximos, onde ele conhece amigos. Entretanto gosto de pensar que isso também lhe deu uma apreciação especial do grito assustador de raposa à noite, ou do olhar estranho e vazio de uma coruja descendo do celeiro .

Entretanto sob suas novas regras, vou ter que levá-lo a todos os lugares.

Apesar do meu iminente sentimento de exaustão, as regras trazem uma sensação de celebração para a casa. Dolly encontra os jogos Monopoly e Cluedo, que não são vistos há algum tempo, e vários pacotes de cartas aparecem, como se ela estivesse montando um cassino na sala de jogos.

No supermercado, Evangeline e Dash estão atentos para escolher pacotes de calabresa e mussarela para pizzas, e adicionar vários pacotes extras de Haribos que eles nunca costumam passar de mim para o carrinho de compras.

Dolly e Jimmy também são bastante exigentes quanto ao planejamento de refeições e querem um programa de comida mexicana, tailandesa, libanesa, chinesa e indiana preparada para eles. Começo com enorme entusiasmo culinário, enchendo enchiladas e guacamole, torrada de camarão e sopa tom yum, haloumi frito e salada libanesa do zero todas as noites. Em teoria, isso é ótimo para todos nós, mas como eu prometi pizza a pedido para as crianças mais novas, também estou lidando com uma gangue de duendes enfarinhados aos meus pés, brigando por causa de quem é a vez de polvilhar a mussarela. É como administrar um buffet internacional à vontade todas as noites. No quarto dia, eu troquei massa de pizza caseira por massa pronta e comprei uma comida chinesa para os adolescentes.

Sob as regras deles, no final da noite, quando eu costumava passar por um único capítulo de leitura para as crianças mais novas, agora tenho que ler “o quanto quisermos”.

Quando, finalmente, desço as escadas para a cozinha, sou confrontado por Jimmy, em sua terceira tigela de cereais Krave, apesar de ter comido a ceia uma hora antes, exigindo uma carona até a cidade para encontrar um amigo. Tarde da noite dirigir é um pesadelo no país, mas especialmente neste momento no inverno, quando as noites são longas, geladas e muito frias. Em circunstâncias normais, eu nem sequer consideraria isso.

A semana está transcorrendo adequadamente, e a certa altura, as crianças mais novas se tornam um pouco perturbadas com sua vida livre, brigando por doces que parecem estar espalhados por toda a casa como confetes grudentos. A maior discussão da semana é entre Dash e Evangeline, que ambos querem crédito por ter tido a idéia de doces na torneira, e eu vejo Dash gritando com sua irmã, segurando um punhado de seu cabelo, enquanto ela coloca Jelly Babies em sua boca. “Eu quero uma regra! Onde estão minhas regras? Eu quero algumas regras!” ele lamenta.

Também houve resultados mais surpreendentes. Eu esperava que os garotos mais jovens ficassem colados na TV, mas eles parecem esquecer isso rapidamente. Eles adoram a quantidade de leitura que recebem na hora de dormir, mas até Dash admitiu que dormir em sua própria cama era melhor, já que havia “pernas demais” nas minhas.

Em suas observações, me sinto mais brincalhona e menos didática e sagaz que o normal. Eu cedi ao caos mais prontamente, o que é uma revelação, e certamente mais eficaz em me empurrar para o momento do que qualquer quantidade de meditação e consciência plena. Cozinhar sem fim de jantares temáticos requer compras cuidadosas, mas também é uma união.

Surpreendentemente, uma vez que eu ceda e pare de lutar contra a ideia, até mesmo dirigir de madrugada tem alguns benefícios. Perto da meia-noite, atravessando a escuridão, Jimmy e eu temos algumas das nossas melhores conversas. Longe do barulho de fundo das crianças mais novas, eu me irrito menos e ele se abre mais, e isso nos dá um tempo precioso juntos.

O veredito

Jimmy Hughes, 17 anos

Foi bom ser a voz oficial no modo como a casa é administrada. Quero dizer, todos nós fazemos o que queremos na maioria das vezes, mas foi bom ter isso por escrito. Algumas das regras pareciam importantes quando as definimos, mas, na realidade, não mudavam a vida. Como no sono: eu percebi que sou responsável pela hora de ir para a cama, pois temos que acordar muito cedo para chegar na escola a tempo.

Foi ótimo ser chefe por uma vez, já que ela é uma chefe forte. Eu tenho 17 anos, ela tem 42 anos, então estamos vivendo uma luta constante pelo poder de qualquer maneira.

Dolly Hughes, 14 anos

Eu simplesmente gostava de estar mais envolvida com a culinária e de ter certeza de que passaríamos tempo juntos como uma família. Mamãe geralmente está muito cansada quando as crianças vão para a cama, porque são incrivelmente barulhentas, mas como nos comprometemos a jogar juntos à noite, mantivemos o compromisso. Isso pareceu especial.

[*] Decca Aitkenhead, Sarfraz Manzoor e Clover Stroud. “‘We’re never going to bed’: children rewrite the house rules”. The Guardian, 31 de março de 2018.