O próximo presidente será um sobrevivente

Deonísio da Silva

A água lava, lava tudo / Só não lava a língua desta gente”, dizia marchinha de grande sucesso nas conturbadas eleições presidenciais de 1955.

Não havia segundo turno e Juscelino Kubitschek tornou-se presidente com apenas 35,68% dos votos.

O que acontecera? Não eram fake news, era tudo verdade. Getúlio Vargas, o presidente anterior, cometera suicídio. João Café Filho, o vice, assumira, mas tivera um ataque cardíaco e tinha sido substituído pelo deputado Carlos Luz, o presidente da Câmara, que, acusado de tramar um golpe de Estado, tinha sido deposto por um movimento militar liderado pelo marechal Henrique Teixeira Lott e substituído por Nereu Ramos, presidente do Senado, que enfim passou o poder ao mineiro JK.

Os políticos de até então praticavam muito o lava-pés, mas não aquele lava-pés herdado dos povos do deserto, que consistia em gesto cerimonioso de boas-vindas ao visitante, em que o  anfitrião lavava os pés de seus hóspedes, prática levada à antiga Roma, depois a Portugal e praticada no Brasil até o século XX. O naturalista, botânico e viajante francês Auguste de Saint-Hilaire comprovou o costume em suas famosas viagens de estudo e de pesquisa por nosso país.

O anfitrião mostrava ter gostado de receber os visitantes e pelos dias que lhes aprouvessem dar-lhes-ia casa, comida e roupa lavada.

Mas por que receber as visitas com tanto carinho? A carícia não é uma exclusividade humana e seus fins libidinosos são mais raros. A vaca lambe o terneiro, é comum que mães lambam a cria. As maternidades modernas, dotadas de recursos tecnológicos inimagináveis para as antigas parteiras, logo comprovaram que bebês prematuros deixados na incubadora demoravam mais a receber alta do que os recém-nascidos que sentiam ou pressentiam alguém por perto cuidando deles, depois de uma temporada vip no ventre da mãe.

É normal que seres humanos gostem uns dos outros, se acariciem com gestos e com palavras. Provavelmente você goste da maioria das pessoas com as quais conviva. O ódio é mais raro. As guerras são travadas por interesses, não por gostar ou odiar.

Em Inglês, o Latim do mundo, o verbo to like tem o significado de gostar, mas originalmente também o de lamber e vencer. Os agrados de gestos e de palavras são muito antigos e de muito proveito para o convívio.

Todavia a arte de agradar entre os políticos ainda está repleta de mentiras e falsidades e não têm a pureza do lava-pés original.

O antropólogo e jornalista potiguar Luís da Câmara Cascudo, com refinamento florentino nas observações, legou-nos algumas frestas esclarecedoras, às vezes imensas claraboias no misterioso reino deste novo lava-pés, às vezes associado ao rapapé, ato de arrastar os pés para trás ao cumprimentar, exagerando ainda mais em nova arte política, a da bajulação, tão praticada entre ele os políticos antes como hoje.

Conta ele que o fim de tarde trazia os lava-pés nos palácios, hora esperada por bajuladores e puxa-sacos de chefes políticos que, levados ao poder por indicação, voto ou outros caminhos, começavam a pensar no sucessor logo no primeiro dia do primeiro mandato. E o sucessor às vezes era o próprio ocupante do cargo.

À boca da noite realizava-se uma cerimônia que tinha o mesmo nome da quinta-feira santa. Mas o chefe não lavava os pés de ninguém, como fez Jesus ao lavar os pés de todos os discípulos, inclusive os de Judas, e como ainda faz o Sumo Pontífice todos os anos na Semana Santa.

O Brasil antigo tinha outros rituais. As diversas confrarias do elogio mútuo esforçavam-se por estender as línguas como tapetes para que coronéis ou seus prepostos marchassem sobre elas, gordos e invencíveis.

O golpe de 1889 que trouxe a República não aboliu a lisonja, tão oportuna quanto falsa. Já faz cento e vinte e nove anos que o cordão de puxa-sacos cada vez aumenta mais, como proclamado em antigos carnavais.

O golpe preventivo do marechal Lott parece ter sido apoiado pela maioria do povo brasileiro, que queria uma intervenção militar saneadora, mas não confiaria a presidência da República ao general Juarez Távora.

As eleições de 1955 espelham o quanto pode ser confusa e surpreendente uma eleição presidencial no Brasil. Embora as eleições presidenciais de 2018 estejam previstas para outubro próximo, maio já é tempo de intensificar a lisonja, movimentar as confrarias de elogio mútuo em busca dos aliados, dos quais, em passado recente, podem ter sido ditos cobras e lagartos.

É uma arte de difícil exercício para os militares. As dificuldades do general Juarez Távora em 1955 talvez sejam semelhantes às do capitão Jair Bolsonaro em 2018.

Mas para todos os candidatos, sejam militares ou civis, é chegada a hora das agressões, das calúnias, das injúrias, das maledicências, agora veiculadas sob o eufemismo inglês fake news. Sim, podem não ser verdadeiras, mas até lá e com a influência delas terá sido escolhido o novo presidente da República.

Uma batata quente começa a ser assada nas mãos do colegiado do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cujo presidente é o ministro Luiz Fux, do STF. Ele já disse que se as fake news triunfarem, o pleito poderá ser anulado.

De todo modo, se o pior não acontecer, o próximo presidente da República terá sido um sobrevivente, mas por quanto tempo?