Flávio Dino não traiu Zé Reinaldo Tavares, traiu a si mesmo

Pipocam nas redes sociais as mais diversas opiniões sobre o possível rompimento entre o deputado federal Zé Reinaldo Tavares e o governador Flávio Dino. Os mais afoitos acusam o comunista de ter traído Zé Reinaldo. Os mais comedidos acreditam que aconteceu ingratidão.

Zé Reinaldo Tavares, e isso não é novidade, ocupa o cargo de criador da nova estrutura oposicionista ao Grupo Sarney. A configuração falida que garantiu décadas de poder foi completamente renovada por Zé Reinaldo em meados dos anos 2000.

Entre as mudanças táticas e estratégicas criadas por ele, estava a renovação dos quadros políticos da oposição. Entre eles o juiz federal Flávio Dino, eleito deputado em 2006 com forte influência do então governador.

Fica difícil asseverar que a configuração política maranhense fosse a mesma de hoje sem a interferência de Zé Reinaldo Tavares. A oposição ao Grupo Sarney pode ser dividida em antes de depois de Zé Reinaldo.

Antes era autofágica, inocente, preguiçosa, isolacionista, ávida por muito falatório e poucos resultados. Depois passou a ser mais incisiva, buscar resultados, pragmática e unida.

Dias atrás o deputado federal decidiu anunciar o rompimento com o grupo que ajudou a tornar vencedor. A razão? Sente-se desprestigiado ao não ter apoio do grupo rumo à disputa por uma vaga no Senado Federal. Apoio que caberia única e exclusivamente ao governador Flávio Dino, que silenciou sobre o caso. Então anunciou que irá buscar por “outros meios” a realização de sua meta.

Flávio Dino não traiu Zé Reinaldo Tavares, isso é fato. O que aconteceu foi pura e simples ingratidão.

Não é preciso ser profundo conhecedor da política para assegurar a veracidade do que foi dito acima. Portanto, se torna irrecusável o sentimento de gratidão que os atuais donos do poder deveriam ter para com o ex-governador. Só que eles não o têm, e não o têm da forma mais escandalosa possível.

Zé Reinaldo corre o risco de ser preterido (ainda não dou o rompimento como fechado, mas sei que não tarda e os agentes do Palácio dos Leões irão fazê-lo assim) por dois políticos que não podem, em qualquer aspecto, serem comparados a ele.

Deve ter sido muito tortuoso ver Weverton Rocha ser anunciado como “primeiro homem da chapa”. A preferência de Flávio Dino pelo pedetista deve ter gosto amargo. E não muito menos dolorido deve sido concorrer com Eliziane Gama pela segunda vaga.

Talvez muito mais pelos nomes do que pela própria situação, Zé Reinaldo deve ter iniciado o processo de rompimento. Aí que a sensação de ingratidão deve ter alçado as estrelas.

Zé Reinaldo não tinha seu desejo preterido por uma estratégia clara e muito menos por nomes tão dignos quanto ele. Vivia esse drama por dois coadjuvantes em uma estratégia que mais aparenta ter como meta fritá-lo do que a própria eleição em si.

Tudo isso sob o olhar de Flávio Dino, tudo isso com a anuência do governador que Zé Reinaldo ajudou a eleger.

Flávio Dino não traiu Zé Reinaldo. Não traiu porque não consta compromisso público ou privado. Não se pode imputar a alguém a culpa pela quebra de uma situação que não foi oficializada.

Ao lavar as mãos e não dar ao suporte necessário para o seu criador, Flávio Dino agiu apenas de forma ingrata. O governador deixou clara a sua incapacidade de retribuição, de reconhecimento pelas atitudes do outro.

Talvez a ingratidão seja até pior que a traição. Algumas traições ao longo da história da humanidade nada mais foram do que mudança de rumo, estratégias formuladas anteriormente. Consideradas traições apenas pelo choro dos derrotados que não conseguiram ver o que muitas vezes era inconfundível.

Gratidão e ingratidão não! Essas independem de fatores externos. Enquanto a traição pode sim ser uma estratégia, a gratidão é virtude dos espíritos realmente nobres. Ser grato a alguém, sem necessidade de compromisso formal, retribuir dádivas ou conquistas de forma espontânea, é ter apreço por si mesmo.

A ingratidão é o seu oposto. O que esperar de alguém incapaz de retribuir uma graça? O que esperar de alguém que despreza aqueles, ou aquele, que um dia lhe estendeu a mão? Se alguém age com naturalidade ao negar apoio aos que já lhe ajudaram, o que pode oferecer aos outros?

Talvez a ingratidão seja a maior das traições, no sentido mais pejorativo que o termo possa ter. Ser ingrato não é trair outro, é trair a si mesmo.

Caso continue se negando a ajudar quem o ajudou a ser quem hoje é, Flávio Dino está mostrando que não é o que muitos acham que seja. Talvez sequer tenha sido algum dia.

Caso permita que Zé Reinaldo siga sozinho, que siga outros rumos, Flávio Dino estará traindo a si mesmo.