Análise textual de Pablo Vittar e Nego do Boréu são destaques em prova do IFMA

O Brasil é um dos 15 países que mais gasta com educação em todo o planeta Terra. Apesar disso, nossos alunos e alunas amargam os piores lugares nos rankings de qualidade de ensino.

Nossos universitários recém-formados… Cerca de 30% deles é considerada analfabeta funcional. E se no passado nosso bom e querido Maranhão se destacava pela soberania de seus escritores, hoje até mesmo o título de Atenas Maranhense parece ser lembrança de algo que nunca aconteceu.

Recebi fotos algumas questões de uma prova aplicada pelo Instituto Federal Tecnológico do Maranhão (IFMA) ontem (03). Está tudo lá, mais evidente do que a incapacidade de nossos jovens de 12 anos de interpretar um texto de 10 linhas. Está lá, completamente manifesta, a falência da educação brasileira.

Semanas após o Enem tratar Gregório Duvivier (um humorista que se notabilizou por falar palavrão no Youtube) como pensador, o IFMA aplicou uma prova em que a novela Malhação, o cantor Nego do Boréu e o cantor Pablo Vittar figuravam entre as referências textuais.

Não é preciso ser um gênio para saber que nenhum dos três é referência. Não é preciso ser um especialistas em pedagogia para saber que criaturas emplastificadas pelo showbizz como Boréu e Vittar em nada adicionam a um estudante. Não é preciso ser especialista em literatura para saber que usar Malhação limita o aluno, o deixa mais e mais refém da Rede Globo. O que, de certo, não é uma vantagem.

E por favor não me venham com essa balela de querer “aproximar” a educação do universo do estudante. Transformar nossas escolas e universidades em extensões da Rede Globo, da Jovem Pan, do Youtube e do Facebook só é solução na cabeça de gente cretina.

Acontece, meus caros e caríssimas leitoras, que a educação péssima e decadente que condena nossas crianças e jovens já tem seus culpados. Já virou clichê: são culpados governadores, prefeitos, vereadores, deputados. São culpados presidentes, ministros e até mesmo os magistrados.

O ambiente de completa destruição educacional que atinge o país é inegável. Aliás, como negar o trágico fato de que 30% dos nossos diplomados no ensino superior são analfabetos funcionais?

A única coisa que ninguém nega é a completa inocência dos professores brasileiros nessa tragédia.

Enquanto isso vão se tornando mais e mais frequentes estes testes, provas, estas aulas que desprezam nomes como Ferreira Gullar e vociferam as letras cretinas de Pablo Vittar.

E antes que alguém me acuse de homofobia ou preconceito, vale esclarecer. O lugar de Pablo Vittar e dos seus iguais já foi conquistado e já está reservado. Televisão, redes sociais, rádios. Até em rótulo de refrigerante. Eles possuem ampla, e justa, exposição na sociedade. Anitta, por exemplo, tomou o lugar de Helley Abreu Batista como “mulher do ano”. Muito provável é que a “mulher” de 2018 seja Pablo Vittar. Mais prova de aceitação social e respeito do que essa? Isso é motivo para perder o sono? Claro que não. 

A vitória de Pablo Vittar, Boréu e Anitta no showbizz, com absoluta certeza, não é motivo de preocupação para quem tem a cabeça no lugar. Essas pessoas ocupam um espaço reservado a entretenimento. pelo que me consta, não cometem crimes e nem enganam ninguém. Fazem seu trabalho e pronto!

O problema é querer tirar delas o status de produtos da mídia e transformá-las em referência educacional matando quem realmente deveria ocupar o posto.

Aí já é demais…

E, para finalizar, uma sugestão aos incultos telespectadores que articularam a prova do IFMA. Usem Ferreira Gullar! Ele não passa na televisão, mas é muito bacana.

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?