Deirdre McCloskey: trans, liberal e em defesa das virtudes burguesas (II)

Deirdre McCloskey, que vem ao Brasil para conferências no seminário Fronteiras do Pensamento.

Deirdre McCloskey implora aos seus leitores que parem de usar “burguesia” como um termo ofensivo, moralmente carregado, sinônimo de ganância, superfluidade ou da “corrupção do espírito humano”. Em sua trilogia, A Era Burguesa, a economista da Universidade de Illinois propõe identificarmos a burguesia com “proprietários e gerentes urbanos, tomadores de risco ou trabalhadores de palavras, grandes ou pequenos em capital, desproporcionalmente alfabetizados e matematizados, ganhando a vida por meio de conversas e cálculos“. Por essa definição, a classe intelectual que critica a burguesia é burguesa. McCloskey, que se descreve como “aristotélica, feminista, episcopal, quantitativa, de livre-mercado, pós moderna”, “uma mulher bostoniana do meio-oeste americano que já foi um homem” também é burguesa. A maioria do mundo moderno é burguesa. E isso é bom.

Pelos três volumes de A Era Burguesa (Bourgeois Virtues de 2006, Bourgeois Dignity de 2010 e Bourgeois Equality de 2016), Deirdre McCloskey investiga o que ela chama de “o Grande Enriquecimento” do mundo moderno: “a disparada a partir de 1800″ que trouxe “uma melhoria gigantesca para os pobres, seus ancestrais e os meus, e uma promessa que agora está sendo cumprida com os mesmos resultados por todo o mundo.” Antes de 1800, os europeus tinham uma renda per capita média equivalente às das economias mais pobres do mundo de hoje, como Chad ou Bangladesh. A chance de morrer antes dos 30 anos era de 50% e a alternativa à morte era uma vida de analfabetismo e superstição, com riscos cotidianos de doenças e fome, e sem a menor perspectiva do que hoje chamamos de “subir na vida” – até porque as escolhas da sua vida seriam tomadas pela tribo ou comunidade em que você vivia. De 1800 a 2000, a renda dos moradores das economias mais avançadas na Europa, América ou na Ásia, aumentou por um fator de 30 a 100. “Não é apenas o dobro, um aumento de 100%, mas um fator de 100, um aumento de cerca de 10.000%”, enfatiza McCloskey.

“O Grande Enriquecimento é o evento secular mais importante desde a invenção da agricultura”, escreve McCloskey. Os debates atuais sobre oscilação na bolsa de valores e controle de agregados econômicos – basicamente do que tratam cadernos de economia nos jornais – não passam de glosas marginais, notas de rodapé, dentro da monumental narrativa de crescimento que construiu e constrói a economia moderna. O Grande Enriquecimento quebrou o equilíbrio malthusiano que colocava um teto na disseminação da vida humana. A população mundial conseguiu crescer num ritmo sem precedentes porque, pela primeira vez na história, a produção de alimentos e outros bens passou a se multiplicar em velocidade mais acelerada e por um longo período de tempo. Esse Grande Enriquecimento que, para McCloskey, “reiniciou a história”, também “eliminará a pobreza, como já a eliminou para boa parte da humanidade”

A empreitada de A Era Burguesa é explicar o Grande Enriquecimento de uma maneira que “economistas e historiadores de esquerda, direita ou centro não conseguem fazê-lo.”  McCloskey gosta de irritar os liberais ao dizer que “Karl Marx foi o maior cientista social do século XIX”. Mas deixa de agradar os socialistas ao completar que “Marx estava errado sobre quase tudo”. Enquanto o materialismo histórico marxista alicerça ideias e valores burgueses como determinados pela estrutura econômica capitalista, McCloskey conta a história de como uma revolução ideológica – nascida no norte europeu – resultou no sistema econômico mais bem sucedido de todos os tempos.

Por isso até, “capitalismo” seria a palavra errada para identificar o sistema econômico do Grande Enriquecimento. O crescimento econômico sem precedentes não foi fruto do acúmulo de capital que sugere o termo, mas do conjunto de ideias e valores liberais, da aplicação “fantasticamente bem sucedida” do liberalismo “ao comércio e à política conforme já era aplicado à ciência, música, pintura e literatura.” Acumular capital é condição necessária para crescimento econômico, mas não suficiente para uma revolução econômica. O capital acumulado pelas grandes dinastias do mundo antigo, como China e Egito, foi capaz de produzir o exército de Terracota e a pirâmide de Giza, mas não deflagrou nenhuma produção industrial de larga escala. A redução da pobreza global, escreve McCloskey, não veio com “o empilhamento de tijolo sobre tijolo, diploma sobre diploma, ou saldo bancário sobre saldo bancário.”

Tampouco empilhando lei sobre lei ou alinhando incentivo com incentivo. Economistas como Douglas North, Daron Acemoglu e James Robinson explicam o desenvolvimento a partir das regras jurídicas que direcionam os incentivos dos agentes econômicos em favor da produtividade e da alocação eficiente de recursos. McCloskey discorda. “Genghis Khan alcançou a supremacia precisamente ao impor o império da lei entre os próprios mongóis, introduzindo, por exemplo, penas severas contra roubar animais (que eram o capital produtivo dos nômades da Estepe) ou mulheres”. O resultado foi um gigantesco império sob a Pax Mongolica, mas não o motor a vapor ou a máquina de fiar hidráulica. Instituições têm a capacidade de produzir saltos econômicos, mas seu funcionamento economicamente criativo depende das motivações sociais.

As ideias impulsionam a aceleração que precede o salto. “O ponto econômico”, diz McCloskey, “é que as idéias estão intrinsecamente sujeitas a economias de escala e, portanto, podem produzir efeitos dinâmicos capazes de explicar fatores de trinta ou cem.”

revolução burguesa começou com uma reavaliação burguesa, uma nova consideração sobre “a opinião ética que as pessoas tinham umas das outras”. O ato de se ganhar a vida com o comércio ou lucrar a partir de uma nova invenção adquiriu dignidade e liberdade. “As pessoas na Holanda e, em seguida, na Inglaterra, não começaram de uma hora para outra a prestar atenção nas oportunidades de lucro. Elas começaram a admirar essa atenção e pararam de chamá-la de pecado ganancioso.” Ganhar dinheiro deixou de ser visto como um jogo de soma zero (se você ganha, eu perco), mas como parte do que McCloskey chama de “o pacto burguês”:

“Você concede a mim, um gestor burguês, a liberdade e a dignidade de experimentar meus projetos no comércio voluntário, e me deixa ficar com os lucros, se eu tiver algum, no primeiro ato – embora eu aceite, relutantemente, que outros competirão comigo no segundo ato. Em troca, no terceiro ato de um novo drama de soma positiva, o aprimoramento burguês fornecido por mim (e por esses concorrentes intrometidos, de baixa qualidade e preços predatórios) deixará vocês todos ricos.”

“E de fato deixou”, completa.

O pacto burguês é compatível com a vida ética. Membros de uma sociedade comercial demonstram maior tolerância para com a vida dos outros. Empresários precisam ter empatia para se colocar no lugar do consumidor e entender sua demanda. Compradores, trabalhadores e investidores devem exercer prudência para manterem seu saldo positivo. A vida ética no mercado se faz de situações ordinárias, cotidianas, de comerciantes e pedestres que, ao trocarem cumprimentos pela manhã, “eles estão seguindo um roteiro de cortesias cidadãs e de encorajamento em favor da prudência e da iniciativa e das boas relações entre vendedores e compradores.”

Em visita à Inglaterra de 1720, Voltaire se refere à bolsa de valores de Londres como sendo “um lugar mais venerável que muitas cortes de justiça” onde “o judeu, o maometano e o cristão lidam um com o outro como se fossem da mesma religião, e reservam o nome de infiel para aqueles que vão à falência”. A ironia de Voltaire, que descreve os traders da época como “representantes de todas as nações lá reunidas para o lucro da humanidade”, captura a novidade de uma mudança ética. O mercado passava a ser tratado como palco de exercício da virtude.

Voltaire serve de exemplo da simpatia que a classe intelectual, o clero, como chama McCloskey, uma vez nutriu pela vida em burguesia. A partir de 1789, no entanto, e principalmente desde 1848, esse clero se revolta contra o pacto burguês. “Quase não há um intelectual inglês ou francês no século XIX que não fosse simultaneamente o filho de algum burguês e severamente hostil a tudo o que fosse burguês”. Mesmo no século XX, com exceção de Buddenbrooks de Thomas Mann e Nice Work de David Lodge, os grandes romances europeus se recusam a apresentar a figura do empresário sob uma luz positiva, reclama McCloskey. Os demais parecem seguir o “axioma” que George Sand formulou em 1867: “o ódio da burguesia é o início da virtude”.

Não que a burguesia deva estar imune a ataques. “Nós devemos criticá-la”, escreve McCloskey, “nas muitas ocasiões em que a crítica é merecida”. Nos Estados Unidos, a burguesia “apoiou os excessos de nacionalismo. Deliciou-se nas perseguições aos socialistas e nos ataques aos gays. Conspirou contra os sindicatos.” Na Europa da Segunda Guerra, “Krupp, Bosch, Hoechst, Bayer, Deutsche Bank, Daimler Benz, Dresdner Bank, e Volkswagen, todas elas, usaram trabalho escravo com impunidade” enquanto “os banqueiros burgueses da Suíça armazenaram ouro para os nazistas”. Ainda hoje, há “salários de CEO obscenos em companhias falidas. Assistencialismo corporativo. O complexo militar-industrial”. A lista é longa.

O erro do clero é que suas alternativas “aconselham um retorno compulsório à ética pré-capitalista e hierárquica, um recuo do contrato para o status, com um verniz, eu repito, de justificativas ‘científicas’ tais como o materialismo científico e o racismo científico e a eugenia científica”. Desde 1848, essas alternativas se mostram equivocadas. “As raças e classes e etnias geneticamente inferiores provaram o contrário. Provaram-se criadoras. O proletariado explorado não foi empobrecido. Ele enriqueceu.”

Talvez falte um quarto ato na trama do pacto burguês: o momento em que novos conjuntos de ideias exigem revogar os termos do acordo, ainda que o resultado seja a tragédia. Se McCloskey está correta em sua tese principal, de que são as ideias, e não o capital ou as instituições, que causam o Grande Enriquecimento, elas também o tornam delicadamente frágil.

A Era Burguesa é a tentativa de se dirigir a um clero intelectual que “se perdeu em seu compromisso anterior para com pessoas comuns, livres e dignas” assim como Cromwell, na paráfrase da autora, se dirigiu aos presbiterianos em 1650: “eu suplico a vocês, nas entranhas de Cristo, pensem que é possível que vocês estejam [factualmente] errados”. O capitalismo pode ser virtuoso. A vida burguesa pode ser romântica. A saga liberal da classe média – com todas as suas falhas e acidentes de percurso – merece ser celebrada como uma história de “sucesso material e espiritual, um idealismo e uma afirmação da vida cotidiana”.