Ensaio sobre orgulho e humilhação gay na novela das 8

Não é mistério para os leitores mais argutos que um dos grandes debates da atualidade versa sobre a famigerada “questão do gênero”. Se antes tínhamos apenas gays, hoje a coisa a ponto de nos depararmos com o “homem trans gay”. A novidade é retratada na novela A Força do Querer, de Glória Perez. Uma trama que consegue ser brilhante e infame ao mesmo tempo no trato da “questão do gênero”.

Saúde e vitalidade de um lado, decadência e doença do outro.

Bem, comecemos então pelo brilhantismo. Quem sabe assim as mentes mais limitadas entendam que este não é um texto de reprovação ou aceitação, mas um texto sobre indivíduos e a responsabilidade por suas escolhas.

O personagem Nonato da novela é motorista durante o dia e a noite encarna o travesti Elis Miranda. Poucas vezes pude perceber um personagem tão seguro de si, tão forte, tão alheio ao mundo e sabedor de si mesmo.

Nonato é motorista do tradicional Eurico, um homem à moda antiga. Portanto, se fazem desnecessárias mais informações sobre a relação dos dois. E mesmo sendo funcionário de uma pessoa antagônica às suas escolhas, Nonato age de forma completamente livre do ressentimento que a censura contra o patrão lhe imporia.

Durante toda a trama é muito mais comum ver o travesti se orgulhando de sua condição, sorrindo e fantasiando sobre o sucesso que gostaria de fazer na pele de Elis Miranda do que tentando elencar culpados na sociedade, do que se vitimizando ou fazendo ativismo de araque.

Elis Miranda consegue ser de uma suavidade cativante quando expõe seus sonhos e sua admiração pelo universo feminino. Além disso, mostra uma bravura digna de espíritos blindados pela certeza de si mesmo ao enfrentar quem tenta caçoar de sua condição. O contraste de candura ao expor seus sonhos com a forma violenta contra playboys que tentam o abuso faz de Nonato/Elis Miranda talvez o personagem mais humano de toda a trama.

Pena que força e determinação são artigos de poucos. Como vivemos em tempos que desprezam tudo o que é exclusivo e superior, é fácil entender que personagem tão agradável não faça tanto sucesso.

Elis Miranda não é uma vítima da sociedade. Talvez venha a ser, talvez seja, talvez já tenha sido. Acontece que ela não se coloca assim. No lugar da angústia comum aos derrotados, o que vemos é a alegria de viver. No lugar do vitimismo, o enfrentamento. No lugar da culpa dos outros, o orgulho de si mesmo.

O ator Silvero Pereira está de parabéns, mas…

Como não deveria deixar de ser o sol Elis Miranda precisava de sua lua. O raro brilho de Nonato precisava ser contraposto pelo populacho, pelo lugar comum. E nada como uma vítima nos padrões da tal ideologia de gênero.

Ivana é filha de uma família rica e desde sempre culpa a mãe a sociedade por não saber o que quer de si mesma. Ela estreia o “homem trans gay” na teledramaturgia nacional. E o que seria um “homem trans gay”. Bem, uma mulher que irá modificar o corpo com hormônios e intervenções cirúrgicas para se parecer com um homem só que tem preferência sexual por… um homem. Eis o “homem trans gay”, o exemplar máximo de certa categoria de pessoas ressentidas e pequenas espiritualmente que não se aceitam como são e, pior de tudo, culpam a sociedade por sua doença.

Ao contrário do travesti Elis Miranda, tão cheio de brilho e vontade de viver, Ivama é um personagem que se esgueira pelos cantos, que amaldiçoa a vida e todos aqueles que não absorvem a sua confusão doentia.

Ivana exige que a mãe e que todos os demais personagens a entendam, o entendam, só que durante toda a novela até agora o que se vê é uma pessoa incapaz de bater o pé no chão e assumir a si mesma. Torno a dizer: muito diferente do motorista e travesti Nonato.

Elis Miranda talvez seja o exemplo máximo do quanto alguém pode ter orgulho de ser gay. Do quanto a força de uma pessoa que aceita a si mesma e arroga para si as responsabilidades por sua vida podem soar como um piano sendo tocado enquanto a chuva cai lá fora.

Sabem outro detalhe cômico? Nonato é perseguido com frequência por outras pessoas e aceita bem a sociedade. Ivana é paparicada por todos os que a cercam e acha a sociedade um saco. Nietzsche explica…

Ivana é apenas o retrato de uma ideologia confusa mais preocupada em criar problemas, em construir conceitos e destruir conceitos. Uma força negativa que se coloca na perseguição da vida enquanto constrói barreiras para si mesma e para os outros.

Ivana é decadência, é ilusão, é doença, é anti-vida. É negação.

Nonato é brilho, é amor, é coração, é sorriso. É aceitação.