“A gente nunca tinha visto isso no Banco do Brasil”

 

 Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras                                                                                                                                              Gustavo Lima

Num dos anexos da delação da Odebrecht, o ex-presidente e herdeiro da empresa Marcelo Odebrecht narra como Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras, achacou representantes do grupo no comando das duas empresas de economia mista.

Bendine foi preso nesta quinta-feira (27/7) na 42ª fase da Operação Lava Jato, chamada de Cobra, seu codinome no setor de propinas da Odebrecht. Ele é suspeito de ter recebido ao menos R$ 3 milhões em propinas da empresa.

Marcelo Odebrecht contou aos procuradores da República, em seu acordo de colaboração, que a empresa estava renegociando uma dívida de R$ 1,7 bilhão no Banco do Brasil, quando eles receberam o pedido de um pagamento de 1% da dívida alongada (ou seja, R$ 17 milhões), por parte de André Gustavo Vieira da Silva, emissário de Bendine.

“Eu neguei. Não concordei, achei que não era o caso. A gente nunca tinha visto isso no Banco Brasil”, disse Marcelo. “Não só não concordei, como achei que ele não podia, não ia conseguir, pela maneira como o Banco do Brasil age… Achei que o achaque não ia ser efetivo”.

Segundo a narrativa de Marcelo, o empréstimo, de fato, não foi afetado pelo não pagamento de propina, embora “talvez pudesse ser agilizado um, dois, três meses se tivesse a boa vontade dele. Demorou mais do que talvez demorasse, mas saiu porque tinha todo o embasamento técnico”.

Ainda no comando do Banco Brasil, segundo Marcelo, Bendine continuou tentando receber o percentual de 1% de propina sem sucesso. Já quando foi nomeado presidente da Petrobras a coisa “muda um pouco a figura”.

“Uma coisa é o que eu sabia da capacidade dele de perturbar a gente no Banco do Brasil, com empréstimo que tinha embasamento técnico, outra é na Petrobras”, analisou Marcelo. “Quer dizer: o cara é nomeado por ela [Dilma], recém-eleita presidente, na Petrobras, a gente cheio de problemas na Petrobras, Lava Jato, muda de figura!”.

Então, Marcelo deu a ordem a um funcionário da Odebrecht: “vamos fazer o seguinte, administra com o André o pagamento, a gente vai administrando, eu não acho que a gente vai pagar R$ 17 [milhões], mas vamos administrando”.

Os pagamentos de propina, segundo a delação e o Ministério Público Federal, atingiram o montante de R$ 3 milhões em três pagamentos, sendo que dois deles foram feitos já com Marcelo preso.

“Obviamente a gente estava cedendo ao achaque não por conta da Odebrecht Agroindustrial. Não tinha a essa altura mais nada a ver com a dívida. A essa altura a gente estava cedendo ao achaque por que ele estava na posição de presidente da Petrobras”, disse Marcelo.

Na avaliação do empreiteiro, Bendine além de presidente da Petrobras tinha sido nomeado pelo governo Dilma como um dos interlocutores das empresas envolvidas na Lava Jato para resolver os problemas relacionados. “Imagine a situação…”.

Fonte: JOTA