O triunfo do jornalismo independente

Ex-governador do Mato Grosso Silval Barbosa (PMDB) estava foragido desde terça-feira.

Seis empresas foram destinatárias de quase metade do dinheiro pago pela Fundação de Apoio ao Ensino Superior Público Estadual (Faespe) a partir de convênios com órgãos públicos como o Tribunal de Contas do Estado (TCE) e a Assembleia Legislativa.

A fundação é investigada na Operação Convescote pela suspeita de desviar dinheiro por meio de contratos com o poder público e empresas de fachada.

O LIVRE obteve a relação das notas fiscais de serviço apresentadas à fundação por empresas terceirizadas no período de fevereiro de 2014 a junho de 2017. O levantamento soma R$ 45.485.031,48 em débitos.

Concisos, densos e objetivos, os três parágrafos iniciais da reportagem publicada neste 12 de julho  no site O Livre, acima reproduzidos, estimularam os leitores da publicação editada em Cuiabá de que estava começando um perturbador cortejo de revelações de grosso calibre. A suspeita virou certeza com a leitura dos dois parágrafos seguintes:

Cerca de 17% do montante pago pela Faespe ─ R$ 7.754.176,43 ─ se referem a notas emitidas entre novembro de 2014 e junho de 2017 pela Travessia Desenvolvimento Organizacional Ltda, empresa de consultoria que desde 2012 atua na linha de frente do PDI (Programa de Desenvolvimento Institucional) do TCE.

A Travessia tem como sócia, e representante em contratos assinados com a fundação, a consultora de Planejamento Estratégico do tribunal, Elisabete de Queiroz. Em 2012 e 2013, a empresa recebeu R$ 13,3 milhões em contratos diretos firmados com o TCE.

No dia 13, a segunda da série de três reportagens a segunda da série de três reportagens exclusivas, assinadas por Rodrigo Vargas, ampliou o teor explosivo das descobertas divulgadas na véspera. O texto exemplarmente enxuto, repleto de cifras e frugal em adjetivos, confirmou já na abertura que as investigações do repórter haviam devassado um escândalo de bom tamanho:

De 2012 a 2016, a empresa de consultoria Travessia Desenvolvimento Organizacional Ltda recebeu ao menos R$ 21 milhões por serviços prestados a órgãos públicos de Mato Grosso.

O volume de recursos é 2.600% maior do que o total de pagamentos recebidos de fontes públicas pela empresa nos cinco anos anteriores, de 2007 a 2011, quando os repasses alcançaram R$ 796.874,78.

A quase totalidade deste salto, 95% do total de pagamentos, foi resultado de valores oriundos do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT) e da Fundação de Apoio ao Ensino Superior Público Estadual (Faespe).

A série foi concluída pela reportagem que identificou protagonistas  de aberrações especialmente repulsivas e escancarou a abrangência do esquema concebido para intensificar os desvios de verbas e, simultaneamente, acobertá-los:

Um compromisso celebrado em 2011 entre o então governador Silval Barbosa e o então presidente do Tribunal de Contas do Estado, Valter Albano da Silva, abriu as portas para a implantação do milionário Programa de Desenvolvimento Institucional Integrado (PDI) a partir do ano seguinte.

O incremento no orçamento do órgão, estabelecido em R$ 25 milhões em 2012 e R$ 25 milhões em 2013, permitiu a assinatura de pelo menos 12 contratos de serviços e produtos com empresas de tecnologia da informação e de consultoria em gestão.

O período marcou, por exemplo, o início do salto no faturamento da empresa Travessia Desenvolvimento Organizacional Ltda, conforme revelou o LIVRE. A empresa recebeu cerca de R$ 800 mil por serviços prestados ao TCE de 2007 a 2011. No biênio seguinte, 2012-2013, fez contratos que lhe renderam R$ 13,3 milhões vindos dos cofres do tribunal.

Obediente ao código de ética que garante o bom jornalismo, Rodrigo Vargas procurou saber o que tinham a dizer os implicados nas histórias muito mal contadas. Não ouviu uma única explicação convincente, não colheu uma escassa argumentação razoável. Foi confrontado apenas com falatórios escorregadios, platitudes bisonhas, discurseiras sem pé nem cabeça ─ e, sobretudo, com o silêncio dos culpados desprovidos de álibis. A reação dos envolvidos só serviu para confirmar a veracidade das informações.

A série de reportagens não se limitou a jogar luz sobre outro atentado contra o dinheiro extorquido dos pagadores de impostos. Somadas, as revelações atestam que a tribo dos corruptos, surpreendida pelas operações moralizadoras ocorridas nesta década no Brasil, algumas delas consumadas em Mato Grosso, ficou mais cautelosa mas não renunciou aos atentados ao Código Penal. Apenas modernizou a metodologia.

Roubalheiras amparadas em licitações de obras públicas ficaram perigosas demais? Pois que se recorra a contratos milionários com lucrativas empresas de consultoria, acordos com supostos especialistas em inovações tecnológicas, fundações dedicadas a atividades imprecisas. O lucro pode ser menor. Mas também diminui o risco de cadeia. Tal descoberta já seria suficiente para afirmar-se que Rodrigo Vargas honrou a lição de Cláudio Abramo, um profissional que brilhou nas redações paulistas: “O jornalismo é a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter”.

No fim dos anos 70, em seu artigo de estreia no Pasquim, o grande Millôr Fernandes fez um vaticínio que os fatos felizmente desmentiram: “Se este jornal for independente, não dura três meses. Se durar três meses, não é independente”. Apesar da censura imposta pela ditadura militar, apesar das arbitrariedades dos carrascos da liberdade de imprensa, o Pasquim durou muitos anos ─ sem jamais deixar de ser independente.

Quando o site nasceu em Cuiabá, é provável que muitos céticos tenham repetido a profecia de Millôr. Erraram, sabe-se agora. A série de reportagens reafirma o triunfo do jornalismo independente.