Quando Adam Smith pega um Uber

A Uber tem tido um ano difícil. Apesar da contínua e crescente expansão do número de cidades cobertas e de usuários, outras questões têm tirado o sono dos funcionários e da administração da empresa. O CEO da Uber, Travis Kalanick, acaba de se afastar da empresa* em meio a escândalos de acusações de assédio sexual e de roubo de propriedade intelectual.

Mesmo em meio a tantos problemas, a empresa tem tomado providências claras no sentido de demonstrar que não corrobora ou aceita essas práticas.

Em relação aos escândalos de assédio sexual, a Uber contratou ex-Advogado Geral/Procurador Geral dos Estados Unidos, Eric Holder, para investigar as acusações. O resultado foi a demissão de 20 funcionários, alguns do alto escalão, além da advertência de outros 30. Já no que toca ao suposto roubo de tecnologia, a empresa demitiu o funcionário que deu causa ao escândalo, alegando que ele não estava colaborando com as investigações.

É interessante notar que a Uber não esperou a polícia concluir as investigações, mas chamou alguém renomado para fazer uma investigação independente, rápida e que já resultou na punição dos culpados. A empresa tampouco esperou o resultado acerca do roubo de tecnologia. A não-cooperação com as investigações já resultou na demissão do acusado.

Adam Smith, o pai da economia, tem uma citação famosa que diz:

“Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelos próprios interesses. Apelamos não à humanidade, mas ao amor-próprio, e nunca falamos de nossas necessidades, mas das vantagens que eles podem obter.”

Na mesma linha, não é da benevolência da Uber que esperamos o nosso transporte, mas da consideração que eles têm pelos seus próprios interesses (lucro). É daí que esperamos, também, a eficiência da empresa quando da punição de quem assedia subordinados, mesmo que sejam funcionários do alto escalão, ou de quem rouba tecnologia alheia.

Afinal, a leniência da empresa com acusações graves como essas poderia trazer não só pesadas consequências legais, como também um boicote vindo dos que hoje são clientes fiéis. Vale lembrar que o aplicativo da Uber tem concorrentes diversos, como o Lyft, o Cabify e até mesmo aplicativos de táxis, como o Easy Taxi.

O contraste com o que acontece em empresas controladas pelo governo, ou com membros do alto escalão do próprio governo é enorme. Há possibilidade de se boicotar a gasolina produzida pela Petrobras, mesmo depois da empresa ter sido protagonista de um dos maiores escândalos de corrupção da história? Difícil, já que a empresa controla o setor. Os políticos continuam com o poder de nomear toda a diretoria da empresa e colocá-la a serviço de suas eternas reeleições, como antes. Podem estar um pouco mais tímidos hoje, devido à Lava Jato (talvez) e com a aprovação da Lei das Estatais, que limita em parte a indicação política para cargos de diretoria, mas a possibilidade existe e estará sempre lá, enquanto o governo tiver o controle da estatal.

O mesmo vale para os recentes escândalos envolvendo as administrações de Dilma Rousseff e de Michel Temer. Aquela, viaja o mundo dizendo ter sido vítima de um golpe, mesmo após ter fraudado as contas públicas, nomeado uma série de corruptos para seu governo e ter destruído a economia do país. Este último, ainda se segura com todas as forças ao poder.

A competição do mercado cria uma pressão nos indivíduos e nas empresas não só para elevar a qualidade dos serviços e manter os preços mais baixos possíveis, como também para se cultivar uma boa reputação. Demonstrar tolerância com assédio sexual e roubo poderia significar o início do fim para a Uber. Essa é mais uma demonstração de que um mercado livre e competitivo pode fazer mais pelo respeito às mulheres e à propriedade que simplesmente leis mais duras ou mais regulações e burocracias estatais.

Fonte: Mercado Popular